Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Escolher ou escolher…eis a certeza!

“Liberdade é poder decidir sim ou não; faço ou não faço (…) é decidir sem esquecer que o estamos a fazer, ou seja, totalmente o oposto a deixar-se levar.” F. Savater

O patriotismo não é algo que me seja indiferente, ainda assim, vou começar esta reflexão com uma expressão de “nuestros hermanos”: “No creo en las brujas, más qué las hay, hay”. Para mim as bruxas são como as escolhas, custa-me a acreditar que há escolhas que possam mudar a vida (isso fazia-nos pensar muito…), mas que elas existem, existem.

 No campo da terapia, as escolhas realizadas pela pessoa são, na verdade, o elemento transformador do que é a hipótese de evolução, de alteração da condição apresentada.

Quando garantidas as faculdades de uma escolha independente e racionalizada por parte do paciente (cliente? Bem… a designação não é o mais importante), o primeiro passo do terapeuta face ao processo de intervenção, deve ser ajudar a que a pessoa se torne consciente que pode escolher e que as suas escolhas são legítimas, ao mesmo tempo que responsáveis (palavra perigosa…). Se a hipótese de poder decidir o seu rumo (neste caso no decurso da terapia) não for bem conhecida pela pessoa, não quer dizer que as escolhas não aconteçam (essas não nos largam), o que acontece é que não se pensa nelas, não são alvo de intelectualização.

A pessoa, que é agora consciente do seu poder de escolha e aceita caminhar lado a lado com o terapeuta no processo de terapia, deverá saber quais as opções que possui. Neste passo, surge a importância de uma certa “sinceridade” ética (não serão as duas palavras indivisíveis?) por parte do terapeuta, que face à abertura da pessoa para o seu juízo e julgamento, deve ponderar e ser capaz de transmitir todas as direcções possíveis que a intervenção pode tomar. A primeira assumpção a fazer é a possibilidade de que o problema apresentado pela pessoa, não seja, na verdade, uma dificuldade com necessidade de intervenção (o técnico costuma ser uma boa fuga para a solidão…). A existência de uma complicação que leva a pessoa a procurar ou ser indicada a uma terapia, pode ter diversas etiologias e o terapeuta deve saber ver, ouvir, recolher informações e conhecer (avaliar no fundo) se o que é transportado à relação, é passível de mudança e transformação tendo em conta as competências profissionais do terapeuta e as características pessoais (valores; a sua ideologia politica, religiosa; as suas crenças, entre outros factores) deste e da pessoa que o procura. Surge então a possibilidade de um encaminhamento, que quando efectuado, não é mais, que o cumprir de uma obrigação profissional e quase pessoal de sentir/saber que há alguém que pode fazer melhor, ou que, simplesmente, o pode fazer, sendo importante para a optimização do funcionamento da pessoa. Se o problema que é identificado na pessoa, entra no campo de acção do terapeuta, terá que existir um esclarecimento dos passos terapêuticos a realizar, dos caminhos a percorrer, dos deveres e direitos da pessoa, das obrigações e condições do terapeuta, do que se pretende no “fim da estrada” como finalidade da intervenção. Estas são escolhas muito primárias numa relação terapêutica, parecem até simples e frívolas demais para serem pensadas com atenção, no entanto, são as pedras basilares de tudo o que é a intervenção/relação ulterior.

Em psicomotricidade, muitos dos casos que surgem a um terapeuta, são de crianças, jovens ou adultos que têm a capacidade de escolher limitada ou afectada por uma multiplicidade de factores difíceis de enumerar neste pequeno texto. Esta constatação, não afasta o terapeuta do que tenho dito até agora. Em primeira instância, na medida em que a compreensão e o estado da pessoa o permitir, todas as escolhas sobre a pessoa, devem ser feitas, precisamente por esta, tornando-se o terapeuta responsável por adaptar o conteúdo (a importância da forma – “modus operandis”) que pretende transmitir às características de quem vai receber. Quando a capacidade de escolha está diminuída, o terapeuta não assume direitos exclusivos sobre as opções do processo terapêutico e deve estabelecer uma comunicação forte com a família ou agentes próximos da pessoa para que em conjunto as melhores escolhas sejam tomadas.

Em suma, recordando uma ideia supracitada, o terapeuta nesta fase inicial da intervenção, deve ter consciência que nem todas as pessoas que lhe chegam, precisam de terapia e, mais importante que isso, o terapeuta deve decidir (escolha em responsabilidade) com quem se sente capaz de trabalhar. A pessoa que procura uma terapia sai reforçada, ora porque percebe que pode escolher e que tem várias opções, ou porque, conhece o projecto e o caminho que vai percorrer no processo de “cura”. As escolhas são, assim obrigatórias e por serem impreteríveis devem ser bastante ponderadas, com especial importância nas decisões iniciais que podem marcar a possibilidade de uma intervenção e condicionar o modo como se vai desenvolver a relação terapêutica.

 

 Questões para discussão:

  • Como avaliar correctamente a capacidade de escolha independente e responsável da pessoa?
  • Como lidar com situações em que a escolha da família ou pessoas próximas é diametralmente oposta à da pessoa que é “paciente”?

Comentem a reflexão e, acima de tudo, comtribuam com a vossa opinião sobre as questões e dúvidas que coloquei e que estão ligadas ao tema.

Obrigado,

Luís Fernandes

One comment on “Escolher ou escolher…eis a certeza!

  1. André da Silva Rica
    6 de Abril de 2010

    Meu caro Luís, desde já os parabéns pelo convite à reflexão. O primeiro estadío dum convite é mesmo este, saber ao certo ao que se convida as pessoas a reflectir, e tu fizeste-o muito bem.
    Lamento que o tempo que tenha não me permita um debruçar aguçado sobre o tema, contudo, prometo que voltarei sempre que tiver algo a acrescentar. E como prova disso vou para já dar um contributo (o celebre “opinar”) sobre a questão da família na decisão do percurso terapêutico em crianças.
    Fruto da minha observação da realidade, e do trabalho que desenvolvo com crianças e com as suas famílias (estes sentido de frase envelhecem-me), são menos raras do que se pensa, as vezes em que as famílias se ocultam do problema, se separam dele, e duma forma magistral encontra razão para a manifestação da criança, que em tudo se exile do problema efectivo – “O seu filho tem uma dificuldade.”. Claro que negação é passo próprio do reconhecimento – bem o sabemos – mas a sua continuidade é factor de agravamento da situação. Em Intervenção Precoce, por exemplo, a decisão é dos pais, melhor : do prestador de cuidados. Logo quando me vejo numa posição contrária ao dos pais só temos um caminho – Aceitar a reacção e explicar a razão. Falar com os pais (desculpem o abuso de linguagem) e explicar o que se pretende do processo, o que se procura atingir; e partindo das necessidades dos pais, dos desejos que têm sobre o seu filho, na soma daquilo que são as reais necessidades da criança, concluir o melhor para o processo. Infelizmente, e há casos em que acontece, os pais não assumem a sua responsabilidade face ao problema; não por não a tomarem como sua, mas por não reconhecerem o problema. Ao terapeuta, aqui a meu ver, cabe lutar pelo interesse da criança. Não é nossa obrigação ética e deontológica impor-nos contra qualquer tipo de mau-trato? Não é a recusa da uma terapia evidentemente útil e benéfica para a criança, uma forma de mau-trato? As entidades competentes assumem-no como tal. A resposta legal é suave mas cria uma forma de agir no terapeuta. A denuncia destes casos é essencial. A criança não pode decidir por si, e os pais não o querem fazer, ou não querem reconhecer a sua decisão. Em suma, o terapeuta tem de ter a certeza do que procura no processo terapeutico – este ponto é a base deste texto – em caso de dúvida – sim também as temos, eu então a lot – encaminhamos, pedimos ajuda como tu disseste Luís, mas em caso de certeza é nossa obrigação lutar pela existência de apoio, esse passo é uma terapia/ajuda por si só.
    Desculpem a leveza do conteúdo, mas contribuirei mais, em breve.. se fui o primeiro… por favor desculpem a quantidade de texto.

    Parabéns mais uma vez Luís

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This entry was posted on 6 de Abril de 2010 by in Uncategorized.

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