Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Terapia vs Pilhas Duracell (dura e dura e dura…)

 

“Cada coisa se realiza de uma vez para sempre, visto que essa mesma coisa, não será jamais recomeçada” Maurice Merleau-Ponty

 

Costuma dizer-se que nada é eterno, tudo é efémero. Para meu bem, quero acreditar que a duração não personifica a intensidade das “coisas”, mas sei que há umas que acabam e, outras, que ficam para sempre, mais pela marca que deixam do que pela sua eternidade. Numa intervenção terapêutica acontece isso mesmo, o que importa não é que esta dure perpetuamente (como alguns interesses aclamam…), mas que seja proveitosa o suficiente para ficar guardada na vida da pessoa que nela se envolve.

Numa intervenção terapêutica existem inúmeras variáveis que influenciam e determinam a qualidade do trabalho realizado. Estes factores que marcam a intervenção são altamente subjectivos, variam de pessoa para pessoa, de momento para momento, de contexto para contexto e por ai adiante…a individualidade e particularidade da pessoa assim o obriga (não há formulas mágicas nem receitas infalíveis). Por tudo isto, torna-se complicado avaliar a intervenção e “atestar” a sua eficácia. A nós, terapeutas, não pode chegar uma observação a “olho”, sem critério, visto que todos sabemos que a maioria das intervenções, mesmo que desadequadas, levam a uma evolução, mais que não seja, pela atenção, empenho e treino sobre o processo a optimizar.

Quando falamos das variáveis mais determinantes de uma relação terapêutica (e consequentemente da intervenção), falamos, na minha opinião, da sua duração. Uma terapia não funciona como as férias, quanto mais tempo durar, melhor é (eu que o diga…), por isso, o factor tempo e, acima de tudo, timming (desculpem o estrangeirismo) deve ser tido em conta pelo psicomotricista. Não há dúvida que questões institucionais, familiares e até pessoais podem ditar o fim da terapia, porém, quando tal não acontece, a duração de um processo terapêutico deve ser sustentada por um conjunto variado de aspectos a reflectir.

Um dos aspectos prende-se com a persistência ou a inexistência de evolução significativa das dificuldades que levaram a pessoa a procurar (ou ser levada) à terapia. Se a pessoa ainda não atingiu o principal objectivo do processo terapêutico, deve ser posta em causa a duração da terapia, podendo seguir-se dois caminhos distintos, ou a intervenção mantém-se, porque se considera que com o actual “rumo” dos acontecimentos, os objectivos vão ser atingidos, ou a terapia termina, porque se esgotou as esperanças na intervenção realizada. Esta decisão tem de ser partilhada entre o terapeuta e a pessoa (ou os prestadores de cuidados da mesma, no caso de uma criança), visto que existem muitos interesses (na sua maioria económicos) que podem desempenhar um papel que não merecem nestas decisões.

Outro aspecto, está relacionado com o processo de autonomia do paciente. Deve haver por parte do terapeuta uma preocupação clara de estender o que é conquistado no espaço de intervenção para os diferentes contextos de vida da pessoa. Esta transferência implica, de certa forma, uma responsabilização progressiva da pessoa, tentando evitar, o que é o desejo da pessoa de se suportar no técnico e apenas conseguir realizar-se e superar-se durante a sessão. Quando o terapeuta sentir e avaliar a possibilidade de iniciar a criação de um espaço em que o seu agir é cada vez menos determinante, no que é a capacidade da pessoa de responder às suas dificuldades, quer dizer que se caminha para uma fase terminal da intervenção, que a sua duração não se prolongará por muito mais tempo. Quando penso nisto, penso sempre numa história da mitologia grega, quando Hércules juntou duas margens de um rio com os seus braços. O terapeuta junta, de certa forma, as duas margens do rio, a pessoa e o que esta quer atingir. Isto acontece progressivamente, até as “zonas costeiras” estarem juntas e não ser preciso o terapeuta para fazer esta ligação.

Por fim, há que ter em conta que uma terapia por si só, encerra na sua definição, avanços e recuos, fugas, desistências, dependências, conquistas e evoluções numa dinâmica que deve ser vivida e conhecida pelos seus intervenientes. O “caminho” não é em linha recta e por isso pode demorar mais, ou mesmo menos (mais raro) tempo, do que era esperado.

Questões para discussão:

  • Que outros factores devem ser tidos em conta na duração de um processo terapêutico?
  • Existe um tempo máximo ou mínimo de duração de uma terapia?

 

Luís Fernandes

3 comments on “Terapia vs Pilhas Duracell (dura e dura e dura…)

  1. Sofia
    13 de Abril de 2010

    Sem dúvida excepcional e acertado o que dizes, e o melhor é k se consegue transpor tudo para a prática.

    Grande iniciativa! Parabéns! Força nisso!!

    Sofia Ferreira (também psicomotricista)

  2. Mauro Paulino
    13 de Abril de 2010

    Reflexões de um grande psicomotricista! Excelente trabalho.

  3. Marta Varela
    14 de Abril de 2010

    Completamente de acordo com a tua reflexão Luis! Transpondo para a minha área, a Psicologia, faz-me sentido acrescentar mais uma variável que poderá ter implicações ao nível da intervenção terapêutica: a vontade de mudança por parte do paciente. Penso que por vezes há a ideia de que os Psicólogos têm uma espécie de varinha mágica e que por isso podem fazer tudo. Nada mais errado. Se não houver por parte do paciente a percepção de que algo não está bem, assim como vontade de mudança, não poderá estar a intervenção terapêutica comprometida? Bom, fica aqui um pouco da minha perspectiva e, aguardo novas reflexões!

    Bjnh, Marta

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This entry was posted on 13 de Abril de 2010 by in Uncategorized.

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