Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Aos meninos mal comportados também se dão presentes…

“As crianças mal comportadas agem em vez de pensar. Mas o que acontece é que muitas vezes elas não sabem pensar, porque pensar não é só resolver operações…” João dos Santos

A frase ancestral, “só recebes presentes se te portares bem”, é uma das afirmações mais habituais e correntes na relação pais-filhos, sendo que como protagonistas estão, usualmente, pais desesperados e filhos que, acima de tudo, estão esperançosos de receber o que tanto anseiam (especialmente na altura em que se “consome o Natal”). Porém, a vida e as relações, não se prendem apenas, com presentes de embrulho, mas com aqueles que são embalados com mãos, braços e palavras do coração, aqueles que mesmo as crianças mal comportadas merecem e precisam sempre, talvez, até mais que as outras.  

Quando falamos de problemas de comportamento, ou meninos mal comportados, o primeiro passo será definir o que para nós é um problema de comportamento. Uma criança com problemas de comportamento apresenta um padrão de comportamento que, no fundo, e desculpem a redundância, lhe cria problemas a ela e aos que a rodeiam. Esta será a definição mais global alguma vez dada (peço desculpa pela simplicidade), no entanto, faz perceber o geral, ainda que não seja suficiente para resolver a questão.

Numa intervenção terapêutica, especialmente na área da psicomotricidade, lidar com os problemas de comportamento é um desafio grande (uma ínfima parte do que passam os pais…), porque as crianças que chegam à sessão já trazem uma “aura” de luta contra tudo o que são adultos, professores enraivecidos, pais que tentaram tudo, desde atitudes mais agressivas para outras permissivas, funcionários da escola, vizinhos…é difícil encontrar nestas crianças uma referência de um adulto como agente apaziguador, pacifista e contentor. Como é mais fácil replicar do que inovar (já nos dizia Albert Bandura), o comportamento da criança vai colocar à prova o terapeuta, levando a que muitas vezes, o processo de criação de uma ligação não comece com uma forte componente empática entre a criança e o terapeuta.

Uma terapia nunca é uma luta, por isso torna-se delicado gerir um comportamento agressivo verbal/físico (auto-dirigido ou para o outro), um comportamento problematicamente passivo (vulgarmente apelidado de desprezo ou indiferença ao adulto) ou um comportamento desviante do que é culturalmente aceite. Nas sessões, o confronto entre a vontade da criança e do adulto costumam ser recorrentes, mas nunca devem existir “braços-de-ferro” que levem a que a criança sinta que o terapeuta está em constante resistência à mesma, ou a procurar comprovar uma coisa que todos lhe dizem: que ela é mal comportada. A definição de papéis e espaços de acção, aliada a um clarificar e especificar quais os comportamentos desadequados da criança, ajuda a que se transforme um, “ela(e) é muito mal comportado, porta-se muito mal”, em algo muito mais concreto que permite mudança, que permite perceber o que antecede e leva aos diferentes comportamentos, assim como a analise às consequências que os mesmos têm (Modelo ABC). Não nos podemos também esquecer que um comportamento depende bastante do contexto (com quem?onde?, quando?porquê?) em que ocorre, podendo ser útil perceber se o contexto é ou não factor determinante.

A psicomotricidade com estas crianças baseia-se num encontrar de alternativas de solução às situações que antecedem os comportamentos problemáticos, assim como, perceber que tudo o que fazemos tem um resultado e que este pode ser benéfico ou prejudicial. Uma sessão, nesta área, envolve contenção, diálogo e, acima de tudo implica experimentação prática de modelos de funcionamento com os outros e com o próprio. Não há forma de chegar à criança indo contra ela (ainda que seja difícil não o fazer neste caso), canalizar o que é trazido para a sessão e transformar é “arte” que não vem nos livros, vem da experiência (principalmente dos erros que todos fazemos e vamos fazer), do conhecimento que temos da criança em si e, principalmente da entrega e compreensão que temos face a comportamentos que nos colocam em causa e nos deixam desconfortáveis.

No fundo, por tudo isto que acima pensei, parece-me que sem encargos económicos acrescidos, faz sentido dar “aqueles” presentes a todas as crianças, mesmo às que por alguma razão fazem da nossa vida um constante desafio.

Situação exemplo (que é tão real que aconteceu mesmo…):

Uma criança de 11 anos chega à sessão com uma fisga com a qual tinha ameaçado os seus colegas a manhã toda. A primeira frase que a criança diz é: “é com esta fisga que logo à tarde vou acertar na tromba da professora”.

  • Em vez das questões habituais, coloco esta situação para reflexão… como será que pode ter sido o resto da sessão? O que foi feito para lidar com este problema?

 Luís Fernandes

3 comments on “Aos meninos mal comportados também se dão presentes…

  1. Mauro Paulino
    20 de Abril de 2010

    Excelente reflexão! É importante cada vez mais termos em mente que ninguém nasce sensível. Mas sim, tornamo-nos sensíveis porque alguém apontou o nosso comportamento quando nos comportámos de forma insensível. E este movimento ocorre adentro de uma relação – e é disto que essas crianças precisam!

  2. Ana
    21 de Abril de 2010

    Penso que a reflexão que fizeste é muito pertinente. Posso estar errada, mas quantos de nós numa sessão, e face a um comportamento de oposição/”mau” comportamento, damos por nós a pensar em reagir com um “não faças isso”, “pára”, etc.? É realmente conhecendo os contextos da criança e suas reacções (e não só), e com a experiência , que aprendemos a dar uma resposta ajustada e diferenciada, e que, como disseste, não se cinja a mais um braço-de-ferro da sua vida.
    Quanto à fisga, surgiram-me várias ideias, não sei se descabidas ou não. Uma seria ignorar a afirmação, mas parece-me que se ele andou a ameaçar os colegas, é porque possivelmente quer chamar a atenção. Outra seria perguntar-lhe quais as consequências da sua acção.
    Na sequência da sessão, talvez fosse interessante realizar actividades com fisga, como acertar em balões ou outros alvos (como modo de expressar a agressividade), e realizar no final uma actividade mais contentora dos limites corporais.
    A sessão poderá ter decorrido de muitas formas, esta é a que consigo imaginar.

  3. Ana
    22 de Abril de 2010

    Para já, parabéns pela iniciativa. Acho o blog bastante interessante, pertinente e preenche um vazio na área da psicomotricidade.
    Relativamente a esta situação mais concreta, concordo com a ideia de propor jogos utilizando a fisga, de forma a eliminar a ideia de “arma”, mas acho que também seria importante tentar sensibilizar o jovem para as consequências do seu uso. Importa também saber o que está na origem de este tipo de comportamento mais agressivo, para que seja trabalhado em sessões futuras.

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This entry was posted on 20 de Abril de 2010 by in Uncategorized.

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