Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Para o ano é que é!

“A equipa técnica é uma equipa que trabalha em grupo.” P. Morato

A cada ano que passa, há sempre uma esperança renovada de que a nossa equipa predilecta (seja de futebol ou de outro desporto qualquer), se sagre campeã e atinja os seus objectivos. Como só pode ganhar um (infelizmente, pelo menos para mim…), muitos outros superam as frustrações com a expressão de um desejo emblemático de crença no futuro…”parece que pró ano é que é”. Há equipas em que isto não é possível, em que o tempo é valioso, o assunto é decisivo e o serviço que estas desenvolvem é muito mais importante que uma competição desportiva. A obrigação de ser e, acima de tudo, fazer melhor, faz com que uma equipa técnica terapêutica vista a responsabilidade de suportar uma dinâmica que tenha como objectivo provocar uma mudança naqueles que atende.

O facto de “duas cabeças pensarem, melhor que uma” é verdade, mas na prática o trabalho em grupo é algo que implica um esforço bem grande, senão dá-se conta que nem duas, nem uma cabeça pensam….pelo menos no que deveriam pensar. A meu ver, existem 3 tipos de equipas técnicas, aquelas que não se organizam como grupo, as que se organizam como um grupo sem quaisquer dificuldades e as de um grupo, que “luta” dia-a-dia para ajustar compatibilizações e encontrar soluções para os problemas dos “outros” mas também do próprio conjunto. As duas primeiras não são realmente equipas técnicas, são conjuntos de técnicos, com relativa comunicação entre si e que como tal não têm problemas em trabalhar em grupo, visto que esse trabalho não existe (Se não comermos lagosta, não temos problemas em ser alérgicos à mesma…um pouco assim).

Em relação ao funcionamento de uma equipa, tenho para mim que um grupo de trabalho só funcionará, quando nele se travarem opiniões argumentadas e questionáveis sobre as decisões realizadas. Em tempos pensei que seria na convergência, que uma equipa melhor se desenvolvia, no entanto, vejo estas questões de outra forma, penso que a divergência torna o pensar mais rico, levando a que as soluções encontradas não derivem, na sua maioria, para extremos. O mais importante é a dinâmica que está subjacente ao princípio, ou seja, não importa o seguir “cego” de modelos transdisciplinares, multi e por ai adiante, visto que o que verdadeiramente interessa, são as relações entre as pessoas de uma equipa, sob um princípio de actuação que deve ser definido e identificado por quem não pertence ao grupo de trabalho (famílias, outros técnicos, paciente…). A dificuldade de trabalhar em equipa é uma complicação inerente às relações…e essa todos nós temos. Como todas as relações, esta cria problemas, implica capacidades que, por vezes, são muito mais pessoais do que profissionais. As relações estritamente profissionais são um mito pois quando se trata de estar com o outro, trabalhar com ele, aproximarmo-nos dele, compreender as suas angústias, partilhar as suas vontades, discutir as suas opiniões, apoiar os seus projectos…o ser humano está (ainda) formatado para se aglomerar a quem mais gosta, quem lhe é mais significativo na esfera afectiva. As emoções ainda não nos deixam ser máquinas e por isso, realça-se o papel importante que tem o espaço de grupo em que se possa partilhar conhecimentos técnicos especializados, mas também ideias e pensamentos pessoais como importantes e legítimos de cada um dos elementos da equipa.

Assim, ser equipa é desafiarmo-nos a nós próprios a assumirmos uma viagem que tem como ponto de partida o conhecimento do que somos e do que podemos dar/receber e como ponto de chegada a qualidade de um trabalho que sai enriquecido pela diversidade. Este desafio não merece constante adiamento, porque “para o ano” já pode ser tarde demais.

Situação de reflexão:

Desta vez, o desafio aos leitores será diferente. Peço-vos que descrevam as vossas experiências de trabalho numa equipa técnica e, se não as tiverem, o que esperam encontrar quando surgir essa oportunidade.

 

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This entry was posted on 27 de Abril de 2010 by in Uncategorized.

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