Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Psic…quê?

"Para ser grande, sê inteiro" F. Pessoa

Com o dever de vos ser sincero, devo confessar que os provérbios não são um ponto forte do meu saber (nem parece português…), no entanto, o tão badalado “quem tudo quer, tudo perde”, parece-me encaixar, como peça num puzzle, no que acredito ser o “estado das coisas” em que se encontra a profissão e o papel do psicomotricista nos seus campos de actuação. Quando se traça um caminho idealizado como o que permite a confirmação das expectativas que temos enquanto profissionais nesta área, torna-se complexo lidar com a disseminação errónea e com uma indefinição constante de um conjunto “inteiro” de competências que nos custa a assimilar e, mais que isso, nos custa a transmitir ao outro.

Somos, em primeira instância, os principais responsáveis da dificuldade que possuímos, enquanto profissionais, para fazer chegar aos interessados, as nossas competências e no que podemos ser úteis. O facto de estarmos a falar de uma área recente de estudo, ou melhor, uma área recente de profissionalização, conta muito no conhecimento que se tem do que é o psicomotricista, do que é a psicomotricidade (ou reabilitação psicomotora). Porém, torna-se indigno pensarmos que esta condição é a origem dos “nossos” males, seria mais fácil não termos a responsabilidade que temos.

 O estabelecimento do campo de acção possível da nossa competência e saber, funciona como numa ilha: o que estiver dentro do que podemos fazer é terra segura, ao contrário, do que representa a água, ou seja, desafios que podem até estar muito próximos dos nossos, mas para os quais não estamos preparados para dar resposta. Nós até podemos conhecer muito bem aquela água, os seus peixes, marés, profundidades….mas no fim não a sabemos navegar. Esta longa metáfora (talvez demasiado longa…) representa muito bem o que acaba por acontecer no nosso trabalho diário, sempre bastante ligado a profissionais e a áreas de estudo (psicologia, ciências da educação, assistência social, entre outros) que devemos conhecer para que haja um entendimento necessário para o cruzamento de pontos de vista, mas que não podemos assumir como nossas.

Ao pensar nesta profissão, que vanglorio com orgulho, fica sempre com a ideia de que não podemos desvirtuar as nossas habilitações e a nossa capacidade de fazer a diferença numa equipa técnica, no que é a intervenção directa com os “pacientes”, mas também no que é a nossa leitura sobre os casos, no que é este espaço (legitimo) e também idóneo de podermos entender o que é o dinamismo único entre o corpo, a mente e a acção. Se queremos crescer, se queremos marcar o que podemos fazer, não podemos querer ser tudo, ao invés disso, temos que procurar ser cada vez mais o que somos. A nossa importância na área da saúde (testemunhada com o nosso trabalho…) obriga-nos a “cuidar” com esforço e dedicação a imagem que os outros têm de nós, não podemos ser os que fazem qualquer coisa, os que dão para tudo, pois isso só nos desvaloriza, isso só faz “esquecer” o que podemos dar.

O nosso esforço deve ser canalizado para o conhecer dos nossos limites enquanto profissionais (já não falando dos pessoais…), melhorar a nossa prática e mostrar resultados da mesma. O modo como chegamos às instituições e a outros locais de trabalho, não tem ligação directa ao número de locais de formação que existem, porque sendo pragmáticos, vale muito mais a qualidade do que a quantidade. As próprias diferenças na formação dada, têm contribuído negativamente, para a imagem que é criada do que é o psicomotricista. Se o consenso e a coerência não existe no “interior” (entre os diferentes locais de formação) como poderá passar para o exterior a ideia de rigor e capacidade do profissional?

Nunca menosprezando as lições que a arte nos dá, há que procurar definição para que possa haver uma melhorada afirmação. “Para ser grande, sê inteiro”, Obrigado Fernando Pessoa.

P.S: Todas as criticas realizadas ao longo da reflexão, devem ser tidas como propostas de reflexão e não como ofensivas a algo ou alguém, visto que para mim foram primeiro feitas e nelas me revejo.

A vossa opinião:

Toda esta reflexão é um levantar de questões que para muito importantes. Comentem o que foi dito e, acima de tudo, acrescentem algo de novo.

One comment on “Psic…quê?

  1. Dolores
    12 de Maio de 2010

    Esta é uma questão que me perturbou durante bastante tempo, acho que agora estou numa fase em que me resignei a algumas coisas, não que isso seja o mais correcto mas neste momento sinto-me cansada de ter de provar, de explicar, de valorizar não só a qualidade do meu trabalho como também a validade da área de intervenção… Passei de um estado em que assumia a minha tristeza perante a incapacidade em fazer passar esta mensagem, para um estado em que penso que também há um grupo de pessoas que não querem perceber, não se trata de uma dificuldade ou incapacidade minha de explicar, mas sim de uma falta de abertura do outro lado.
    Agora preciso de tempo, não sou resignada, acredito bastante no que faço, acredito que posso fazer melhor e que todos ficam a ganhar com a nossa afirmação profissional. Preciso de tempo para recuperar a energia que nos últimos tempos canalizei mais para a minha vida pessoal e menos para a profissional. Mas estou a caminhar nesse sentido. Obrigada por partilhares as tuas questões, que em alguns aspectos são muito semelhantes às minhas.

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This entry was posted on 4 de Maio de 2010 by in Uncategorized.

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