Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Click!

“As situações ideais nem sempre são possíveis ou, pelo menos, não são possíveis sempre” P. Stretch

Mais para a esquerda…um bocadinho mais para baixo…isso foi muito, sobe, sobe…boa! Click, já está. A moldura perfeita, com a mãe, pai, filhos, avôs, avós, tios, primos, vizinhos, irmãos e irmãs, o gato, o cão, o passarinho – ninguém de fora, tudo feliz, num espelho tantas vezes ficcionado que, raramente, transpõe a crítica barreira para a realidade. Não há famílias cliché, replicáveis e, parafraseando outros autores, “não há (sobretudo) famílias perfeitas”.

Uma família é, a meu ver, um conjunto de elementos, com uma forte ligação afectiva que partilham um contíguo de acontecimentos de vida significativos. Não há dúvida, que as concepções de família diferem, na mesma medida em que esta é olhada de diferentes pontos de vista. Do que quero falar hoje é da família no seu expoente máximo do significado da palavra, não me debruçarei sobre a “família de notário”, cientificamente aclamada de “família alargada” (como se as ligações entre alguém fossem criação de secretaria). Se atentarmos ao que disse acima, os elementos de uma família reduzem-se substancialmente, até sentirmos, que os que ficam são os que realmente estão. Hoje em dia, com o tempo a escassear e o que é rápido a ser escolhido (ou subjugado?) às únicas escolhas das famílias, o tempo para criar laços fica menor, na mesma proporcionalidade que as pessoas que tomam lugar como, verdadeiramente importantes, residem em número inferior. Isto não sinaliza o final dos tempos, como os “cavaleiros literários do apocalipse” gostam de apregoar, mas alerta para uma renovada concepção de família e da compreensão de como funciona este sistema. Como sistema, cada família tem uma lógica de funcionamento, um princípio e modelo endógeno na interacção entre os seus elementos e exógeno na resposta aos factores externos. As variações desses “infinitos” sistemas são categorizáveis? Não sei…eu tenho alguma dificuldade em conseguir encaixar as famílias em gavetas teóricas de conjuntos de aspectos que caracterizam muitas famílias, mas que, geralmente, não trazem muito à compreensão e à actuação junto destes grupos. Os termos físicos ajudam-me no pensar sobre a dinâmica familiar e acabo por chegar à conclusão que existe sempre algo de caótico nesta, que lhe dá um cunho único, que confere uma identidade.

À luz desta opinião, o que é uma família problemática? é, analisando de uma forma simplista, um sistema de indivíduos em que o caos “esmaga” os princípios de hierarquia e ordem de uma qualquer organização social e, mais que isso, deixa pouco espaço ao intento principal da organização emocional dos seus indivíduos – o afecto. A segunda questão que surge, acoplada à anterior é o de como lidar com estas famílias. Um aspecto importante, talvez o primeiro a ser tomado em conta será o de não criar imagens “santas” (nem para o pior nem para o melhor) de receitas certas sobre modos infalíveis de chegar às famílias. A formação parental é um termo rígido que assusta os técnicos (“pressão de ensinar”) e ainda mais as famílias (“pressão de corresponder”), porque este “formar” faz muito mais sentido quando a família ou, concretamente, as suas figuras parentais são incitadas a descobrir o que são e a experimentar outros modos de actuar. O modelo de comunicação unidireccional (emissor – receptor) é um mito no contacto com os pais, é uma defesa para quem não quer compreender as dificuldades de uma família, que condicionantes a esta se colocam no seu dia-a-dia e que impacto criam estas condicionantes na vida de cada um dos seus elementos. No papel de técnico, não pode haver outro objectivo que não seja a ligação próxima à família, ao assegurar que das mais variadas formas (defini-las será o papel técnico) o lifespan daquela família é aumentado, ou seja, existe algo que é factor de mudança, que leva ao assumir do problema, pelo qual o sistema optará (ou não) por se mover na tentativa de solução.

Para respeitar uma certa simetria, volto a experimentar mais uma tentativa pictórica – Mais para o pai…um bocadinho para a mãe também… e os irmãos…isso foi muito conflituoso, contêm, suporta, assegura, discute, partilha e agora vira para o mesmo…tempo após tempo, repetição após repetição – as famílias são assim, pelo menos a minha e todas aquelas que me fazem pensar.

Questões para discussão:

  • Como reagir perante divergências entre figura maternal e paternal na procura das soluções para os problemas familiares?
  • Como decidir entre uma intervenção individual e em grupo para uma família?

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This entry was posted on 11 de Maio de 2010 by in Uncategorized.

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