Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Terapias (alter) nativas na psicomotricidade.

“A linguagem não é um fenómeno superposto ao ser-para-o-outro: é originalmente o ser-para-o-outro, ou seja, o facto de que uma subjectividade se experimenta como objecto para o outro” J.P. Satre

Ao pesquisar a palavra “alternativas”, deparei-me com o facto de, como muitas outras palavras, esta deriva de outros dois vocábulos – “alteração” e “nativa”. Assim, encontro o significado actual (como são sempre os significados) do que é alternativo, como o nascer (e por isso nativo) numa alteração daquilo que já existe. Numa visão filosófica, tudo poderia consistir algo alternativo, respeitando a premissa sofista que nada se constrói partindo do zero (tudo é uma reconstrução). No entanto, se queremos ser práticos, penso que conseguimos identificar com facilidade o que consideramos de “alternativo”, especialmente no campo da terapia que, com legitimidade, procuramos entender. A emergência da Análise e reformação celular, passando pela Biodança, as Constelações familiares, a Cromoterapia, a Dietoterapia, a Energia taquiónica, a Facioterapia, as Flores de Bach, a Iridologia e a Naturoterapia (e tantas mais …) tem o condão de (querer) mostrar ao mundo que tudo pode ser terapêutico, desde que usado com técnica. Estas e muitas outras terapias alternativas, aumentam a possibilidade de escolha, nem sempre confirmada na qualificação das opções. O crescente capitalismo dos modelos profissionais de relação prestador de serviços-cliente, levaram a mudanças importantes no domínio da saúde e cuidados terapêuticos. O movimento de autonomia de ciências “novas” com uma implicação prática dita especializada, proliferou-se e, hoje em dia, temos uma quantidade tão vasta de terapias à escolha da pessoa, apenas comparável aos desejos mil, que tem quem as procura, um desejo de confronto com algo “milagroso” que lhes dê uma resposta que ainda não tiveram ou que, na pior das hipóteses, não quiseram ter. A maioria destas terapias alternativas baseia-se na utilização de canais específicos de comunicação, materiais ou para-materiais (desculpem o neologismo) para melhorar a qualidade de vida dos sujeitos. A minha intenção, nesta reflexão, não é o de criticar e atacar estas terapias (pelo menos mais do que já fiz acima), mas a de estabelecer uma ponte entre estas e o que é a utilização de diferentes “canais de relação” técnico-pessoa, tendo em conta a face visível do seu desenvolvimento a diversos níveis (emocional, cognitivo, motor e social) – a sua expressão. Como psicomotricista, procuro que esteja inscrita em mim a importância dada à relação no âmbito da terapia, assim questiono-me: do que se faz uma relação? como ela se constrói? o que funciona como substrato da comunicação? Para estas perguntas, penso que a única resposta será dada no peso conferido à expressão como elemento principal do processo terapêutico. Na minha opinião, existem no processo relacional quatro factores essenciais no estabelecimento de uma comunicação – o emissor e receptor, como actores principais num alterar constante de papéis e transformadores cabais de uma mensagem que se insere num contexto, num “pano de fundo” moldado na medida da ligação emocional do emissor e receptor. A mensagem e o contexto relacional em que é dita, estão na base do sucesso da terapia psicomotora sendo que neste campo, os psicomotricistas têm que aliar os seus conhecimentos a uma sabedoria da prática e experiência que “liga as peças” do processo terapêutico e que dá à engenhoca interligada do sentido uma concretização no contacto com a pessoa. Por isso, mais que alternativos no método (como o fazem as diferentes terapias alternativas), há que ser alternativos no meio, ou seja, utilizando a vivência corporal como base para a mudança, não devemos ignorar nunca a importância de outros meios de comunicação para chegar ao sujeito. A música, a dança, a escrita, os aromas, a auto-indução, os jornais, os panos, os lenços, as máscaras, as fotografias, os filmes…constituem formas de possibilidade e expansão das nossas intenções, visto que as coisas não se esgotam nelas mesmo, têm um significado que tem que ser por nós pensado, por nós planeado como um desafio colocado à pessoa que nos procura, um desafio que promove desequilíbrios e a sua consequente reactividade na equilibração. Como se esta dimensão não bastasse, penso existir ainda uma forte inscrição corpórea em qualquer meio de expressão de uma mensagem, mais que não seja, pela forma como é recebida e/ou expressa (os nossos sentidos). Para finalizar, acredito que o que marca a intervenção técnica/terapêutica com excelência esta na descoberta partilhada, entre técnico e paciente/cliente, da forma para atingir o fim, sendo que a alternativa e a “originalidade” estará obrigatoriamente presente, numa abordagem que se quer acima do método, fundamentalmente, individualizada. As terapias alternativas, tal como a psicomotricidade, não dão para tudo nem para todos como se quer fazer passar. Além disso, nem todas funcionam, porque a simples transformação de uma relação com as “coisas”, num conjunto metódico de pressupostos técnicos só confere credibilidade (a que consegue…) a quem acredita na rigidez e intransigência das intervenções como caminho para o sucesso. Em jeito de provocação saudável, prometo procurar uma escritoterapia que esta que faço todas as semanas não parece ter melhorias…

Questões para discussão:

  •  Qual a vossa opinião sobre esta proliferação em massa das terapias alternativas?

2 comments on “Terapias (alter) nativas na psicomotricidade.

  1. Marina
    6 de Julho de 2010

    Olá Luis =) é incrível que seja a primeira vez que comento este espaço que leio com alguma regularidade!
    Acerca deste assunto, queria perguntar-te se achas que existe realmente uma distinção entre o que são as terapias alternativas e aquilo que podemos fazer em psicomotricidade. Durante a nossa formação, aprendemos e aplicamos sessões (quer em estágio quer em trabalhos práticos) de arteterapia, dramaterapia, dançaterapia, musicoterapia, etc….dá-nos a sensação que temos algum tipo de competência em aplicá-las.. e apesar de ter noção que talvez precisemos de nos imiscuir um pouco mais no que elas significam e qual a sua essência técnica, penso que é um método de intervenção que nós, psicomotricistas, podemos perfeitamente “usar” sem que para isso tenhamos que receber mais uns trocos ou intitular-nos especialistas em “Y-terapia”.
    A ti, que tens mais experiência e já contacto a nível profissional, pergunto: será que devíamos tirar uma especialização (como seja na área de teatro ou de artes performativas, por exemplo), ou podemos aplicar essas terapias sem qualquer reticência?

  2. Luís Fernandes
    6 de Julho de 2010

    Penso que se valorizamos a competencia profissional que temos e respeitamos as competencias alheias, a formaçao em Y-terapia é imprescindivel para a aplicabilidade da mesma. No entanto, a utilização de certos aspectos como a música, o teatro entre outos, deve estar na nossa preocupação como utensilios para cumprir as nossas intencionalidades como psicomotricistas. Espero ter ajudado. Obrigado pelo comentário

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This entry was posted on 18 de Maio de 2010 by in Uncategorized.

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