Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Há sempre 3 lados…

“Todos os espíritos são invisíveis para os que não o possuem, e toda a avaliação é um produto do que é avaliado pela esfera cognitiva de quem avalia” Schopenhauer

 

 

 

 

 

 

“Há sempre três lados numa história, o meu, o teu e o verdadeiro”… que sentido me faz. Ao ouvir esta frase, numa animada conversa de autocarro, tentei compreender o significado que ela podia ter, quando aplicada a outras situações. Desta transferência para outros “mind contexts” encontrei uma ponte metafórica forte, entre estes três lados de uma história e o processo de avaliação inserido nas fases naturais de uma terapia. Ao contrário do pensar receoso e, sobretudo castrador do processo de avaliação, a avaliação não é uma “patografia” catalogadora do sujeito, mas muito mais um processo “personalista” (como diria Oliver Sacks), em que se avalia para conhecer, conhecimento este que nasce da apreensão da identidade da pessoa (no sentido global das suas vivências). Assim, também a avaliação é uma história, uma narrativa com vários lados que, a meu ver, se pretendem apreendidos e esclarecidos até onde nos permite a objectividade e a ética.

A avaliação tida como o processo de recolha, sistematização, compreensão e decisão sobre o sujeito é uma ferramenta indispensável à intervenção terapêutica (em psicomotricidade e não só), vem dar resposta às dúvidas e incertezas do terapeuta, defendendo as decisões que são tomadas por si, enquanto medidas importantes para a mudança de condição do paciente. Além de subsistir como essencial para a intelecção do sujeito, surge como uma imperativa do terapeuta para com o mesmo – o paciente/cliente ou os seus prestadores de cuidados (se for o caso) devem ter uma ideia o mais clara possível das suas dificuldades e potencialidades, assim como do que vai ser feito para levar à diminuição das primeiras e à expansão das segundas, respectivamente. Estas são princípios que estão inscritos moralmente e profissionalmente no que somos enquanto terapeutas, no entanto, sabe-se a dificuldade de avaliar em psicomotricidade, a escassez de testes que possuam rigor métrico aplicável à população-alvo, a precariedade de instrumentos de avaliação que existem na generalidade das instituições em que desenvolvemos o nosso trabalho e o tempo e valor dado ao processo de avaliação (num paralelismo infeliz com a fast-food). Com tantas limitações, a avaliação passa, muitas vezes, por ser uma qualquer obrigação institucional, um “fardo” para o psicomotricista que avalia o sujeito para responder a uma imposição laboral e não para fundamentar o que é a dimensão visível e a dimensão invisível do que observa do paciente (há sempre qualquer coisa que não conhecemos ou que vemos e não compreendemos). O psicomotricista não deve “descansar à sombra” destas limitações, porque se importa (e muito) o rigor métrico de uma avaliação (todos temos o dever de investir na investigação em psicomotricidade), tenho para mim que o mais importante será o “rigor ético” da nossa ligação com o paciente – o respeito pela pessoa e pela posição que temos perante a mesma, numa dialéctica de direitos e de deveres (nos quais se inclui avaliar). O desafio é realizar em cada avaliação uma “micro-investigação”, procurando o rigor das provas e testes aplicados, nunca com a intenção de rotular o sujeito (não queremos uma fotografia estática mas um filme em constante mudança), mas de perceber as suas capacidades/limitações/potencialidades/desejos. Que com a salvaguarda do espaço próprio do paciente, se construa uma história, se explore quem é aquela pessoa que procura ajuda, qual é o seu ponto de vista sobre a doença/deficiência, há uma história antes da doença/deficiência? O que mudou? As histórias não moram sozinhas, têm sempre as suas personagens, a sua acção própria, sendo que da sua melhor compreensão, advém, sem dúvida, uma optimizada intervenção. Não podemos tentar entender o todo, observando só uma parte, nem todas as partes observando o todo (Gestalt).

A avaliação não é um “bicho de sete cabeças”, não é uma tarefa aborrecida para nos colocar problemas, é antes um desafio que se transforma numa “viagem” que é proveitosa e útil para o terapeuta na medida em que este se esforce a ultrapassar os obstáculos materiais e humanos que encontrará durante o processo. Há que deixar de lado imagens clássicas e estáticas da avaliação, há que dar-lhe um carácter, sobretudo, cinético e dinâmico, contemplando diversos momentos e diversas formas de olhar para o paciente. Por tudo o que disse, se tivesse que escolher não deixava nenhum dos três lados da história de fora, torná-los conscientes é o primeiro passo para melhor ajuizar sobre eles.

Questões para discussão:

  • Que principais dificuldades têm encontrado na avaliação em psicomotricidade?

 

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This entry was posted on 25 de Maio de 2010 by in Uncategorized.

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