Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Oficina de Carpintaria Humana.

“O Homem nasce como se fosse uma "folha em branco"” J.Locke

Ao pararmos para pensar na complexidade das concepções sobre o homem, vemos que estas tocam diversas áreas (psicologia, filosofia, neurologia e por ai…) e vão-se colocando ora nos extremos, ora na intersecção entre as descobertas ou ideologias diversas. Neste contexto é supreendente (diria que bastante curioso) olharmos para trás e percebermos que em 1700, John Locke comparau-nos a uma tábua rasa. Um pouco mais tarde (cerca de 1750), Jacques Rosseau, não muito dado à carpintaria, vem “vender-nos” a imagem de o homem como o ser supremo (o “bom selvagem”), completo e perfeito na sua essência, mas com um malogrado destino – ser corrompido pela sociedade. Os principios de Lock e de Rosseau estavam virados para o desenvolvimento moral no significado e sentido da vida humana, no entanto, acabam por estar intimamente ligados à discussão eterna da Nurture vs Nature, somos produto do meio ou pré-determinados pelos genes? Qual dos dois tem maior importância? Penso que uma concepção exacta do homem nos seus “pesos e medidas” está longe (até porque os consensos são quase sempre circunstanciais), mas o que, realmente, importa é consciencializar que as práticas terapeûticas são influenciadas pela forma como entendemos o objecto (a pessoa) e isso merece, de nós terapeutas (especialmente psicomotricistas), um ponto de reflexão valorizado.

A psicomotricidade é, sem dúvida, uma dimensão inerente ao sujeito e como tal é nossa função (obrigação até) compreender a sua etiologia de formação, a génese ontogenética desta dimensão mas também o seu significado como parte indivisivel da pessoa. Assim, e tendo em conta o que foi dito acima, que influência terá o meio na psicomotricidade de um sujeito ou quanto desta estará pré-determinada desde o nascimento?São perguntas dificeis de responder (ou colocar) e que a investigação se tem esforçado a clarificar. O que a investigação também já nos ensinou é que os extremos são falaciosos e, neste caso, lembro-me sempre da visão da montanha. Se cada uma das posições extremas de uma ideologia ocuparem os dois pontos mais baixos da montanha, nenhum deles conseguirá ver o outro lado. Assim, se não conhecermos a diversidade de posições, nunca entenderemos a integridade do que procuramos apreender (dai este blog como local de discussão). No fundo, sabe-se que o homem funciona em termos de potencialidades e capacidades “debaixo” de um fundo genético que não pré-determina mas que nos dá o “menú” de realizações. Numa intervenção psicomotora (e noutras) perceber que há caracteristicas do sujeito que são marcos hereditários e geneticamente cimentados é um passo em frente na compreensão do mesmo. Há niveis de performance e aptidão que não são tangiveis por todas as pessoas, nem todos podem ter o talento que tinha Beethoven ou a inteligência de Einstein, visto que existem niveis de competencia que não dependem somente de aspectos práticos, de treino e de interacção com o meio como setting do condicionamento. Um psicomotricista que não tem isto em conta pode estar a exigir demasiado a alguém ou a tentar encontrar explicações causuistícas para os problemas do sujeito, quando estes são originários/bastante influenciados por aspectos genéticos. No outro lado da moeda, há que perceber que uma intervenção psicomotora só faz sentido quando se dá um peso cabal ao que é a capacidade de modificação do sujeito, ao que a pessoa consegue, com a ajuda terapeûtica, potenciar no que é genético e garantir as assimilações e acomodações (Piaget) que levam à adaptação.

A adaptação é, do meu ponto de vista, o “termo fronteira” aquele que consegue a integração o mais exacta da consideração dada ao hereditário em conjunto com uma “humanidade” virada para fora, no sentido em que procura responder ao que o meio lhe pede. As visões retrogradas e singulares não melhoram a capacidade prática de um psicomotricista, visto que até neste campo, a integração de conhecimentos num funcionamento em equipa multidisciplinar pode marcar a diferença numa intervenção.

Hoje em dia sabe-se que Locke estava errado, mas a comparação entre a tábua rasa e o homem foi essencial para compreendermos que este não é de facto uma tábua rasa, mas uma tábua com encaixes (com “pré-arrumações”), que o meio preenche umas vezes com livros bons, outras com livros que não valem a leitura.

Questões para discussão:

  • De que forma a importância dada ao biológico e às interacções com o meio têm influenciado a vossa prática profissional em terapia?

One comment on “Oficina de Carpintaria Humana.

  1. Filipa Saramago
    1 de Junho de 2010

    Amigo!!

    antes demais aquele abraço, e agora psicomotriciticamente falando gostei da tabua de encaixes !! acho que é um bom meio termo entre a tabua rasa e o ser totalmente “formado”, o meio onde estamos inseridos e até a rede de suporte que temos influencia sem duvida a nossa intervenção quer em termos profissionais da dita intervenção de caracter individual ou grupal ( o material que dispomos, o espaço que temos, a população com que trabalhamos), quer mesmo ao nivel social os apoios que temos que podem potencializar ou “diminuir” as capacidades , as vontades os direitos e deveres da população com que trabalhamos! Somos enfim um ser multidimensional e multifactorial dependemos de nós da nossa essencia dos nossos talentos e do meio onde estamos inseridos!aquele abraço!!

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This entry was posted on 1 de Junho de 2010 by in Uncategorized.

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