Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Ser autêntico.

“I suggest we love ourselfs before its made ilegal” B. Boyd

No decurso de uma situação vivida durante a semana transacta, surgiu o ímpeto, apoiado por demais de poder, neste espaço, reflectir sobre a forma como o terapeuta se apresenta, no que é visível, ao seu paciente/cliente. Nestes tempos em que se torna difícil fazer prevalecer o que se é, em detrimento do que se parece ser, uma imagem vale muito mais que mil palavras, vale uma atitude perante a pessoa, vale a criação de estereótipos, a resposta a preconceitos e define uma afinidade no sentido imediato do contacto com a pessoa – quer se queira quer não, a expressão hiperbolizada de “amor à primeira vista” faz algum sentido.

O contexto é independente da tendência que possuímos em aprender a olhar os outros segundo a nossa própria imagem (o verdadeiro sentido da aprendizagem social de Bandura), daí o que é diferente provoca-nos sempre uma atenção especial. Apesar da complexidade infindável do ser humana, comportamo-nos de forma muito semelhante e, tanto assim é que, o que foge à normalidade nos causa alguma perplexidade. Há muitas formas de expressar esta diferença, seja pela condição de deficiência, pela forma como nos vestimos, pelas inscrições corporais que fazemos (tatuagens ou piercings – ritos de expressão corporal, inocentemente alvos de compreensões psicológicas pouco simpáticas), por certas posições que se possa defender, pela assumpção da sexualidade própria… Seja pelo próprio condicionamento da situação ou pelas escolhas que cada um de nós faz, o “julgamento social” é inevitável (e muitas vezes acusatório com contornos abusivos).

Numa intervenção psicomotora, este “julgamento” de que falava não foge à generalidade, acontece da nossa parte face ao paciente/cliente, à sua família, aos nossos colegas de trabalho, mas também da parte de todos estes intervenientes em relação a nós mesmos. Será que isto pode influenciar o nosso trabalho? Penso que é uma “irresponsabilidade no pensar” se não jogarmos com esta dimensão na compreensão que fazemos do processo terapêutico. Carl Rogers, introduziu na terapia centrada no cliente, um conceito que pode ter relações muito próximas com o que disse acima – o ser autêntico. Segundo Rogers, para que existisse uma relação que levasse o cliente à descoberta das suas soluções, o terapeuta tinha que ser acima de tudo autêntico. Para se ser autêntico tem que se ser o que é – parece simples, mas não é tarefa fácil, isto porque a nossa autenticidade tem sempre algo de próprio (aceitação do que somos e reconhecimento do eu) mas também de construído no processo relacional (o que nos é transmitido pelo outro). Rogers referia que o terapeuta tem de “se colocar com o que é ao dispor do outro”, sendo claro que tem que existir uma aceitação primária do que somos perante nós mesmos. Assim, há que estar bem com as nossas expressões, as nossas escolhas, a nossa roupa – o que trazemos (ou fazemos ausente) para a relação cliente/terapeuta é, sem dúvida, aquilo de que temos que ter responsabilidade. A responsabilidade de não serem, para nós terapeutas, barreiras para uma melhorada intervenção. As nossas escolhas, em todos os aspectos, devem ser assumidas e não podem constringir a nossa actuação, são a ferramenta que temos para assegurar a autenticidade.  

O terapeuta não tem que ser diferente, nem procurar não sê-lo, porque neste jogo de juízos, o que é complexo é sermos exactamente o que queremos ser, naquele momento, com aquela pessoa, com aquele objectivo/intencionalidade e para isso não nos podemos despojar do que vestimos, do que escolhemos, do que fazemos, porque é exactamente isso que nos caracteriza. Como dizia o rapper brasileiro, Grabriel o Pensador – “Seja você mesmo, mas não seja sempre o mesmo”.

P.S: Por opção não vou deixar nenhuma questão para discussão, de modo, a que a mesma seja o mais aberta possivel. Penso que todos têm uma opinião concreta sobre este assunto e não quero de forma alguma direccionar (ainda mais) a mesma.

One comment on “Ser autêntico.

  1. Pedro Morato
    9 de Junho de 2010

    Olá Luis, acho estimulante a tua reflexão sobre a autenticidade. De facto, o ser-se autêntico no sentido Rogeriano e também Santiano (João dos Santos), em intervenção terapêutica exige que o terapeuta tenha competência para o ser. Claro que há um domínio técnico que o terapeuta poderá aprender, mas há antes dessa aprendizagem técnica que são não mais que procedimentos morais, de respeito, de cordialidade, de atenção, etc,…uma dimensão pessoal que lhe é inerente como estrutura da sua personalidade, ser ouvinte e disponível, empático e não só simpático e que lhe permite com naturalidade ser terapêuta em autenticidade que é antes de tudo alguém que não esconde ou finge sentimentos, que se apresenta tal como é, principalmente tal como se sente e por isso é congruente entre o que pensa, o que sente e o que faz.

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This entry was posted on 8 de Junho de 2010 by in Uncategorized.

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