Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Uma palavra sobre “a palavra”.

“No mundo há muitas palavras, mas poucos ecos” J.Goethe

No inicio não foi, de facto, o verbo. Muito antes de qualquer palavra, já reinava outra linguagem, aquela que nasce do corpo, se fundamenta na acção e é indissociável do nosso próprio começo (como espécie inclusive). Porém, se a palavra não inicia o que somos, não há dúvida, que não conseguimos desligar-nos desta (mesmo os que não a podem receber ou expressar) pelos ecos da mesma, pela ressonância emocional que provoca e pela forma como acompanha, condiciona e reforça as acções.

A importância dada ao que apelidamos de linguagem corporal não pode “tapar” a nossa visão para o que a linguagem verbal traz para uma relação terapêutica. Para nós, psicomotricistas, ver o corpo sem a sua significação e simbolização linguística é precisar de um oftalmologista (para os olhos da mente). A palavra não é dimensão paralela ao eu corporal, é a extensão de algo que antes foi vivido e concretizado, depois conceptualizado para um espaço que previamente a ser de comunicação, é de compreensão e elaboração. Corpo e verbo não são antagónicos nem desconexos, são sim, originários de um mesmo processo de apropriação do exterior, ora pelos sentidos, ora pelos signos.

Numa relação terapêutica, a palavra diz-se muito no que não se ouve, ou seja, como dizia Saint-Exupéry– “o essencial é invisível aos olhos”, neste caso à nossa compreensão. Aqui, entramos na Twilight Zone da linguagem, na sua componente paralinguística que redefine e dá cunho ao que é dito. Os silêncios, o tom de voz, a fluência, a dicção são aspectos que marcam a linguagem verbal, umas vezes de forma coerente, outras nem tanto (para nosso desespero). Torna-se pertinente reparar que mesmo a palavra, que consideramos (pela força do hábito) como algo bastante “cerebral”, tem no seu “como” uma marca muito corporal que carimba o conteúdo do que pretendemos transmitir.

O psicomotricista tem de assumir que há que dominar o poder da palavra e da sua utilização – há que ter a palavra contentora quando as situações parecem descontroladas; há que ter a palavra prática quando a ordem é a de maior rapidez; a palavra explicativa quando há assuntos que fazem “ping-pong” na cabeça; a palavra mãe que dá “miminhos”; a palavra tropa no anunciar do recolher; a palavra silêncio se o tempo é de ouvir; a palavra sombra que tem o dever de repetir o que foi bem ou mal dito; a palavra amarga que sabemos que não vai ser bem recebida; enfim, as palavras de situação, como sempre são, porque se transformam no significado que têm para quem as diz e para quem as ouve.

Desta forma, uma intervenção psicomotora não pode funcionar na perfeição, sem o cuidar das palavras, a prática das mesmas na situação terapêutica, a ligação que estas fazem ao que é agido – assim, parafraseando (como tem sido feito) um anúncio televisivo muito afamado: Podia haver psicomotricidade sem o uso da palavra? Poder podia, mas não era a mesma coisa.

Questões para discussão:

  • Que peso tem o uso da palavra nas vossas práticas terapêuticas?

 

2 comments on “Uma palavra sobre “a palavra”.

  1. clara castilho
    15 de Junho de 2010

    A posição coporal – o abraçar, o afastar – dizem muito. O facies também, podemos ver o acordo, o sorriso, o horror, o espanto, a malandrice. A palavra pode ser contentora, encorajadora, pôr limites, humoristica, introduzir o paradoxo que faz pensar… Nem consigo imaginar trabalhar sem a palavra. Mas há necessidade disso, no caso de quem não tenha a capacidade de ouvir e de falar. Aí teríamos que desenvolver em nós outras formas de abordagem.

    Passando para o nosso dia a dia actual – o que teríamos perdidos sem as palavras do Luís que, sem esperarmos, nos fazem rir!

  2. Cátia Ornelas
    20 de Junho de 2010

    Eu neste ano curricular tive que trabalhar com outro tipo de palavras que não as verbais. O meu estágio realizou-se no CED Jacob Rodrigues Pereira, em que uma das crianças acompanhadas era surda e não falava. Tive que aprender língua gestual portuguesa, que no referido caso, não fazia diferença pois a criança tinha 3 anos de idade e também não tinha grande diversidade de gestos. Tivemos que utilizar outro tipo de palavras… palavras corporais, tivemos que criar, entre nós os dois, como que um sistema de comunicação nosso. Foi uma experiência única… a expressão facial e corporal foram muito importantes para nos compreendermos mutuamente. Pensei que podia ser difícil fazer psicomotricidade sem o uso da palavra verbal, mas acabou por ser uma boa surpresa. Concordo quando dizes que “a palavra pode ser contentora, encorajadora, pôr limites…”, mas o gesto também pode ter toda essa força que a palavra tem…

    Continua a fazer-nos pensar com estas reflexões que acabam por espelhar muitas das minhas preocupações enquanto futura psicomotricista!! Fica bem**

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This entry was posted on 15 de Junho de 2010 by in Uncategorized.

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