Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Tendências Descentralizadas

“Não é que eles não possam ver a solução. É que eles não conseguem ver o problema” G. Chesterton.

No campo da diferença e do arriscar assim o ser, assistimos a movimentos muito presentes de repressão e afirmação de novas ideias, projectos, formas de pensar, iniciativas…enfim, novas tendências que aumentam em expressão, à medida que a atitude que agora temos é, sem dúvida, “mais aberta” do que a que era tida em tempos transactos (o que não quer dizer que exista a “abertura” suficiente). No entanto, quando no quadro económico-mercantil, existem ideias suficientemente arrojadas como papel higiénico com cores, um humedecedor de selos (que não a malfadada língua) ou mesmo aspiradores de mosquitos, é de considerar que alguma coisa mudou no espaço de criação da pessoa. E no espaço terapêutico? Em que ponto está a nossa capacidade de descentralizar, de experimentar sair da zona de conforto e confrontar a individualidade do alvo da intervenção?

            Uma assumpção que, enquanto psicomotricistas, será importante ter é de que não se pode tratar a desigualdade/especificidade com igualdade. Como “velejadores” da aventura terapêutica, não se pode remar contra a ordem nata do que é naturalmente diferente, ou seja, será muito complicado homogeneizar intervenções em forma de receituário porque, na maioria dos casos, estas vão debater-se com uma dificuldade muito prática – o funcionamento pessoal do paciente/cliente não corresponde àquele que nós estamos a trabalhar. De forma mais concreta será, por exemplo, propor a uma criança do espectro do autismo uma intervenção desorganizada e pouco faseada, ou a uma criança com PHDA actividades demasiado estáticas no tempo e espaço – não resultará (na generalidade) e criará ansiedade em nós e em quem nos procura.

A terapêutica é um jogo de encontros, não de sobreposições (ninguém se coloca na pele de ninguém), de vivências num espaço de contenção e controlo do que é o funcionamento pessoal, em diversas situações, camufladas de desafios, que uma vez trabalhadas propõem uma mudança de comportamento. Se pensamos que este aproximar da pessoa e o afastar da doença/deficiência (enquanto rotulador) nos aprisiona a capacidade de reinventação é porque nunca o experimentamos na realidade. A análise da pessoa, numa perspectiva globalizante, implica um esforço de compreensão e de intuições que são a base da procura de resoluções que pelo seu carácter particular são revestidas de uma certa “tendência descentralizante”, em que se parte da exploração do indivíduo (paciente) para sair da redoma intelectual das coisas pré-feitas que nos dizem o que fazer quando acontece “isto ou aquilo”.

No abandonar da forma padronizada como nos colocamos perante a pessoa, transformamos a intervenção num campo de experiência, recriação, mas também, de uma responsabilidade imperiosa de fundamentação – invariavelmente, a importância da investigação. Não querendo de forma alguma, materializar a condição humana, a terapêutica é, por vezes, uma espécie de “tiro às latas”, em que as primeiras tentativas são sempre repletas de desconhecimento da melhor distância, da melhor forma, da força a aplicar, do peso das latas e por ai adiante…mas que não haja hesitação em compreender que são estes ensaios que aumentam a capacidade de resposta do terapeuta (assim como a sua responsabilidade profissional).

Neste sentido, largar o conservadorismo dos “velhos do Restelo” e ousar expor o que somos enquanto terapeutas (pessoas principalmente), mostram o lado excêntrico desta profissão. Muitos conotarão a palavra excêntrico com um pendor negativo daquilo que é sem o justificar ser – mas a excentricidade explica-se no distanciar do centro, no inovar e procurar acrescentar mais ao que somos, a partir do investimento no outro.

Questões para discussão:

  • No experimentar de novas hipóteses de intervenção, que medidas há a tomar para que a mesma consiga ser credível/fundamentada?

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This entry was posted on 22 de Junho de 2010 by in Uncategorized.

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