Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Um por todos, todos para um.

“Nos indivíduos, a loucura é algo raro - mas nos grupos, nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra” Nietschze

Num épico cenário de guerra, trezentos espartanos deparam-se com hordas de inimigos (isto para parecer mais cinematográfico) que são em muito superados pelos milhares de persas. Nas “emoções” da batalha, o general espartano, na intenção de reagrupar e, principalmente, reavivar as suas tropas, reivindica a força de conjunto – “Sei como esta batalha será difícil, mas também sei bem, que no fim da mesma, não festejarão mais que trezentos homens”.

A história é epicamente conhecida e apesar de conter em si as habituais dúvidas dos “plenários de vizinhança” – quem conta um conto, acrescenta sempre o seu ponto – transmite a importância do trabalho em grupo, traduzido nas motivações e desafios do mesmo.  Embora os espartanos sejam homens rudes (sim, tinham muita barba, comiam com a mão e falavam de boca cheia) deram um exemplo cabal de organização, transformação e, acima de tudo, de assumpção de uma especificidade identitária que caracteriza o grupo através da representatividade e espelho das relações própria dos seus elementos. A nós, terapeutas, o que nos é exigido na construção deste projecto de trabalho com um grupo?

Um olhar para o retrato – Antes de entrar no ginásio já dois miúdos estão no seu interior a chutar violentamente uma bola contra a parede. Enquanto, outro a tocar-me nas costas, propõe um jogo de forma frenética, em oposição aos gritos de um miúdo que se opõe à realização daquele ainda projecto de jogo. Os membros restantes disputam uma corda que não sabem para quê nem onde a vão utilizar. A situação faz-me aperceber que a sessão começa mesmo antes de começar e o espaço de organização em prol do grupo é já uma dinâmica de conjunto a ser trabalhado. As dificuldades de gestão das “tropas” fazem-se pelas complicações próprias que as mesmas têm em estar neste “campo de combate” que é o jogar as suas vontades com as vontades do outro.

Na verdade, trabalhar com grupo é ter consciência de que estar debaixo do olhar do outro é muito diferente do que estar sob o olhar dos outros. O julgamento, o diálogo, o colocar-se no lugar do outro e a partilha não são projectadas numa relação dual da mesma forma como são vividas numa dinâmica grupal. O espaço de ideação e comunicação que é aberto na relação, traz também incitações claras à divergência, ao pensamento expresso para ser não só ouvido, mas discutido, contraposto e concretizado numa tarefa conjunta – isso cria conflitos, “guerras” nas palavras e nas acções, torna o trabalho um esforço nada “cor-de-rosa” (por vezes bem negro), embora compensado pelo prazer e alegria.

O grupo como projecto terapêutico, como disse acima, tem uma identidade que é formada pelo “sumo” das características dos seus indivíduos, no entanto, o segredo do terapeuta está no conhecer das suas individualidades e lapidar as mesmas transformando-as em ferramentas que crivam nos seus elementos uma unidade funcional. Há que largar os binóculos e jogar ping-pong, ou seja, tem que haver uma atenção e esforço de compreensão muito direccionada e em constante mudança de alvo (ora para um lado, ora para o outro…quem já jogou ping-pong percebe), ao contrário do que acontece numa relação a dois, em que é obrigatório o uso de binóculos (de ver ao perto).

O espírito de grupo, muito aclamado nos contextos desportivos, faz sentido também na terapia – sentir que se faz parte de um grupo e conseguir que o mesmo funcione é o espelho do que num ambiente controlado e liderado por uma figura de referência (terapeuta) deve ser ornado para ser transposto para o que é a “vida além terapia” (o mundo é tão verdadeiro como cruel…). A minha convicção pessoal é que o maior obstáculo que se encontra neste trabalho, está no desligar do movimento narcísico de procura do outro (apenas para) para supressão das necessidades próprias, sendo que quando este passo é dado, existe uma grande evolução na relação com os elementos do grupo, no fundo, com os peões sociais.

Assim, com frequência populista se refere que “duas cabeças, pensam melhor que uma”, mas para isso as duas cabeças precisam de saber pensar (não se devem confundir com cabaças), de querer pensar e de possuírem uma capacidade de entendimento (na faculdade e na afinidade) que permita fazê-lo.

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This entry was posted on 29 de Junho de 2010 by in Uncategorized.

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