Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Numa antítese ao “sítio das coisas selvagens”

“Hoje, não poderia conceder demais à minha desconfiança, visto que, agora, não é tempo de agir, mas apenas de meditar e de conhecer” R.Decartes

Como amante fiel ao cinema (às histórias tão deles quanto nossas…), os filmes fazem reflectir e enredar no que a vida, vista através das objectivas dos nossos olhos nos pode significar. “O sítio das coisas selvagens” é uma produção cinematográfica recente, que nos propõe o velejar nas aventuras oníricas (ou do imaginário do seu real?) de uma criança indisciplinada e sensível que se sente incompreendida em casa e procura, no “seu mundo” de coisas aparentemente selvagens (sobretudo visualmente selvagens), uma resposta. O hábito torna cliché a existência de narrativas em que a mudança do carácter de malévolo para bondoso das personagens se torna na piéce de resistance do enredo. Estas determinações estigmatizadas, da demonização infernal e do perfeccionismo angélico não estabelecem um termo de comparação verosímil com o real e levam a pensar naqueles momentos em que se esta no “sítio das coisas boas” (com a recessão, deixou de ser as férias), mas onde também surgem obstáculos e barreiras para as levar a bom termo. Neste campo, penso na construção de um caminho enquanto profissionais, assim como, no que nesta “viagem” nos faz duvidar, desanimar e recuar.

A questão central, a meu ver, será sempre a da confiança – parece básico afirmá-lo, porque a palavra pode não transmitir a complexidade das suas implicações e sentidos. O que é produto das nossas vivências (enquanto terapeutas) tem um cunho intelectual, no sentido da aquisição de conhecimentos, mas terá também um cariz emocional, de impacto do vivido no que somos (no que já se viveu). Assim, de que será feita esta confiança que traz com ela a persistência, a audácia e o ânimo para continuar?

A confiança terá sempre uma medida que se baseia no produto das nossas intervenções, nos resultados vistos, comprovados e também sentidos na relação com o cliente/paciente. Costuma dizer-se que em “equipa que ganha não se mexe”, sendo que não estando de total acordo com a afirmação (o sucesso não é indissociável do erro), sei que se o que fazemos é reforçado com a confirmação de bons resultados, tenderemos a repeti-lo (obrigado a Watson, a Pavlov e ao cão deste último).

Outra das raízes da confiança está no que nos dizem, especialmente, num trabalho em equipa que envolva um conjunto de relações significativas – ouvir que o nosso trabalho tem sido bem desenvolvido é diferente de ver esse desenvolvimento – torna-se concreto nas palavras ditas o valor que temos e que nos é reconhecido (como outros diriam: external praise).
No plano americano, John Cacioppo, neurologista conceituado no campo da neurociência social, “arrastou-me” a pensar numa dimensão muito particular no alimentar do processo de confiança – o que pensamos que os outros pensam de nós. Esta aproximação à teoria da mente, coloca uma responsabilidade muito própria em cada um de nós, naquilo que é retido e interpretado na relação com os outros e que inconsciente ou conscientemente, permitimos que se torne significativo no nosso “olhar ao espelho”.

Por fim, “the last but not the least”, a confiança é absorvida (e também espelhada) no peso das responsabilidades que nos são dadas ou a que nos auto-propomos responder. Nesta dimensão, a confiança transmuta-se na audácia, confundem-se estes dois “sentires”, visto que não se pode percorrer os “oceanos” se não se deixar para trás a margem e nisto não há receitas, se como terapeutas há ímpeto de mudar para melhorar, então há que arriscar para que neste “sítios das coisas boas” que é ser psicomotricista haja sucesso e satisfação.

A confiança não chega para um bom trabalho, mas nenhuma casa se ergue só com cimento, ao mesmo tempo, que sem este não há casa que se construa.

Questões para discussão:

  • Na vossa prática profissional, de que forma sentem a confiança reforçada?
  • Que obstáculos/barreiras existem na crença em nós mesmos enquanto terapeutas?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on 6 de Julho de 2010 by in Uncategorized.

Navegação

%d bloggers like this: