Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

O homem deitado na folha branca.

“Só numa situação concreta sabemos o que realmente somos” V.Ferreira

Num ensaio sobre a “acuidade visual” – o meu louvor ao grande escritor José Saramago, que sentiu na pele (injustamente) o peso de ser maior que as suas ideias – proponho a observação metafórica de um homem deitado numa “folha branca”, isolado no tempo e no espaço de qualquer elemento, humano ou material. Que interpretação podemos experimentar? Estará este homem que todos observamos de igual (pelo menos com os olhos de ver) a dormir? A jogar às escondidos com os seus filhos? A ver televisão? A ser alvo da expressão inicial de um afecto recordação pelo seu falecimento? Como o definir, como o entender na sua acção se a “folha branca” não for pintada com o que lhe rodeia, se não virmos o puzzle na sua totalidade, não veremos nem metade.

A compreensão da importância do enquadramento com que se avalia e apreende o cliente/paciente mostra que se o quadro só é visto na sua individualidade, o significado não é o mesmo, podendo tornar-se falacioso – faz lembrar o “amor à primeira vista”, na generalidade, ama-se o que se conhece, quando não se conhece o suficiente (pressagio que será a ultima referência a estas questões complexas) – P.S – ver no final. Um movimento interessante será questionar, quantas vezes nos deparamos com diferenças significativas no funcionamento da criança/adulto que apresenta mais que “duas faces”, na escola, em casa, no trabalho e mesmo dentro destes microsistemas. A relação com o contexto envolvente obriga o terapeuta a conhecer a pessoa na sua singularidade e interiorizar que este conhecimento não é bastante, pois cada um de nós tem esta relação, muito pessoal e circunstancial com o meio – uma espécie de Humpty-Dumpty. Se recordarem o clássico de Lewis Carrol e as cómicas personagens destes irmãos gémeos, constantemente a confrontarem-se e complementarem-se, o exercício de paralelismo com os estilos de interacção entre o indivíduo e o meio é tentador. Quanto de nós responde ao contexto da forma como ele nos incita a responder, assim como, o contexto é conformado pelos moldes em que o replicamos. A acção (e a reacção?), seja em si problema ou solução é sempre contextual, impressa numa composição que marca as possibilidades. A condição humana subjugada à fragilidade dependente da circunstancia em que se encontra, traduz um quadro demasiado duro, quase tanto como real, logo, como terapeutas deve haver lugar para esta reflexão, sobre como educar/reeducar/reabilitar uma pessoa perante condições tão entrópicas.

O panorama não é, felizmente, tão desolador, pressupõe uma acção virada para o real. A proposta de terapia em ambientes pouco desafiantes, idílicos na frequência/intensidade dos estímulos oponentes/favoráveis e com demasiada protecção (constrição), permite pouco espaço a duas evoluções importantíssimas no decurso de qualquer intervenção – a independência pessoal marcada pela constância e continuidade no funcionamento próprio e a capacidade adaptativa às diferentes situações. O “ingrediente especial”, complicado de definir e concretizar, assenta na capacidade que o terapeuta terá em mediar que reptos colocar ao paciente/cliente, reptos estes, tantas vezes “escondidos” que parecem não responder ao que a pessoa precisa, porque a mesma não vê nestes desafios as dificuldades com que se depara no dia-a-dia (seria demasiado frustrante e punitivo), encontrando ainda assim as soluções para as mesmas.

A generalização desta atitude terapêutica pode não ser consensual, no entanto, penso que em muitos casos, a terapia tem este cariz de parecer uma ilusão, de propor a troca de armas numa “batalha encantada”, ao mesmo tempo que é descoberto o prazer e a importância dos outros; de desafiar a interpretar vilão e herói numa mesma cena, exercitando o colocar-se no lugar do outro; de construir um mapa do tesouro imaginário, quando se descobre como ir de casa à escola/trabalho sem perder o sentido no caminho. De certo, a expressão “senhores do disfarce” será demasiado abusiva (ainda não usamos facas, coelhos e mulheres em trajes menores), mas, não tenho dúvidas, que a capacidade de transformar deve ser uma das nossas realidades.

 

P.S – Outro exemplo da forma como as acções são sempre circunstanciais pode observar-se no fenómeno de Paul, “o polvo adivinho”. Como o simples abrir de uma caixa e o alimentar de um polvo pode significar um palpite sobre as vitórias da Alemanha num Mundial que é na África. Ainda ninguém perguntou ao polvo se a caixa que ele escolhia era da equipa vencedora ou da que ia perder…vai na volta e o polvo falhou todos os palpites.

Apelando à troca de experiências que procuro fomentar…

Proponho a descrição de situações em que a transformação do setting terapêutico permitiu um transfer efectivo de soluções parar situações noutros contextos.

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This entry was posted on 13 de Julho de 2010 by in Uncategorized.

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