Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

“Always look on the bright side of life”

“Não são as nossas ideias que nos fazem optimistas ou pessimistas, mas o optimismo e o pessimismo de origem fisiológica que fazem as nossas ideias” M. Unamuno

 

 

 

 

 

 

 

 

“Always look on the bright side of life”, lema cravado na história dos Monty Phython, considerados por muitos como os criadores e interpretes da melhor sitcom da história da televisão. Quantas vezes, assolo-me com o pensar que a comédia, para mim muito prezada, tem um poder singular no processo de reflexão sobre diversas questões – sobretudo nas dúvidas dogmáticas que a “suposta” seriedade encerra nas paredes da rigidez de conjecturas e do silêncio das suas aplicações. As situações por mais ridículas (no seu sentido divertido) e estereotipadas nos antípodas que sejam, mostram outras perspectivas exageradas de, na generalidade, situações problemáticas. O exagero colocado leva a ver que o que existe não é assim tão desesperante, ao ponto de ainda se poder fazer disfemismo acerca disso. Surge neste contexto a palavra optimismo (expressa no emblema dos Monty Phython) – ver o que é, como algo de positivo, mas também como algo de transitivo para algo que irá ser, ou melhor, conseguir ser. Numa ligação tão non-sense (também é sátira) como legítima, proponho a reflexão sobre que lugar este optimismo tem  numa terapia centrada na pessoa

A terapia, sem optimismo de todos os intervenientes, não existe. Se da parte do terapeuta esta crença nas possibilidades da pessoa que acompanha são da sua responsabilidade moral, ética e profissional, já do lado da pessoa, o acreditar no que vai conseguir é uma capacidade com raízes pessoais e circunstanciais. Apesar de terminadas em “dade” estas palavras comportam em si significados muitos distintos que são, a meu ver, o ponto de partida na compreensão do que é o factor optimístico na intervenção. Na direcção de focar o olhar sobre o terapeuta, o optimismo é a “dimensão invisível” da intervenção, a confiança que se defende da prática e do conhecimento do terapeuta sobre a pessoa e desta sobre si-mesma, no entanto, não se pode comparar esta crença a uma fé apostólica infundada*, mas a uma “fé” particular baseada em dimensões muito concretas do processo de relação com a pessoa. O que já foi observado (a história), o que é observado (o potencial) e o que esperamos que seja observado (as concretizações emergentes) compõem três dimensões temporais do processo de criação desta convicção positiva, sendo que a mesma, nunca surgirá desligada da própria história pessoal e profissional do terapeuta, dos seus fracassos, dos seus sucessos, do seu tempo e investimento no estudo do caso, dos padrões relacionais do mesmo, da sua resiliência de suporte à capacidade de arriscar futuros mais ou menos previsíveis, entre outras características individuais.

No produto deste acreditar construído de dentro para fora e de fora para dentro – interioexterior – está um olhar para o “bright side”, para o lado brilhante, para as áreas fortes em vez das fracas, para os problemas com um certo eufemismo, que não os mascare mas que os torne motor de novas soluções. O risco que se corre é muito claro e centra-se na escolha entre a lâmpada e a cenoura. O optimismo pode fazer de nós (ou nós dele) figurações da Florence Nightingale – “a dama da lâmpada”, enfermeira histórica que percorria os corredores do hospital militar com uma lâmpada para auxiliar o tratamento aos feridos – permitindo a “luz ao fundo do túnel” na carga negativa que a pessoa carrega com as suas problemáticas ou, no sentido oposto, pode criar burros de cenoura pendurada diante dos olhos – as utopias criadas com a crença exacerbada na pessoa traçam um rumo inalcançável, visto que por mais que se insista num mesmo caminho a “cenoura” está sempre à nossa frente, a meta nunca é atingida.

Para concretizar a reflexão, espero que o optimismo depositado pela minha pessoa num texto que fala dos Monty Phython, da Florence Nightingale e de burros, não seja demasiado utópico, permitindo-me, humildemente, “trincar” a coifa da cenoura.

*Salvaguardo o facto de existirem crenças apostólicas, que pela sua fundamentação, por mais que não seja a um nível muito pessoal, tenham, na sua realidade, todo o motivo.

Apelando à troca de experiências que procuro fomentar…

Em que situações mais especificas e que possam ser exemplificativas, pensam que este optimismo é colocado “à prova”.

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This entry was posted on 20 de Julho de 2010 by in Uncategorized.

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