Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Do outro lado do espelho

 

“E ainda tonto do que houvera, à cabeça, em maresia, ergue a mão, e encontra hera, e vê que ele mesmo era a princesa que dormia” F. Pessoa

Tic-tac, tic-tac, espero com um misto de ansiedade e atonia a abertura da porta da garagem… não sei o que pesa mais, se o corpo, se a cabeça, não serão os dois o mesmo? Enfim…é melhor concentrar-me nas questões simples, para que não me perca nas filosóficas. O dia foi de confusão, como todos os outros, resolver tantos problemas, tão variados, tão difíceis….tão problemáticos. Bem, não custa resolvê-los, não tanto como os custa aceitar – sim é desgastante, sim, obriga tantas vezes a dar mais do que se pode conceder. Mas agora, a chegada ao lar, “(agri) doce” lar…

            Este “cantinho ao sol”, que tantas vezes está à chuva, aquele que me suporta quando estou em prejuízo, parecendo fazer esquecer que neste lar, as complicações não são quiméricas. São bem reais, são as de alguém ou “alguéns” que querem tanto de mim por direito e dever. Aqueles que vêem que o meu “poço” que poucas vezes seca para outros, está a esgotar para eles. Aqueles que inúmeras vezes reparam que com tanto para integrar, falta espaço para mim, que as “coisas” não estão bem (mesmo quando sinto o mesmo), que algo se passa comigo, que é preciso uma pausa…Pausa? Que pausa? Como se a vida fosse um filme, em que em vez do actor sou cineasta, como se costuma vocabular – deixem-se de filmes. Até ao limite, acredito que consigo ultrapassar, o tempo vai resolver isto, o tempo é a bimby das emoções, faz tudo – há-de cortar o que esta a mais, juntar o que está desligado e misturar tudo num esperar passivo de uma mudança total do que nos inquieta…

            A verdade, talvez a minha verdade, não é esta, o tempo vai perdendo a sua força, quando no dia seguinte, se acorda e se projecta a repetição protomelancólica de tudo o que não se conseguiu admitir, do que se passou e ainda um enorme “monstro” de novas complicações, que podem ser tão minhas como são dos outros. Aliás, a certo ponto fico sem saber, onde começam os outros e onde estou eu.

            Depois de entrar em casa, mala no chão, televisão ligada, a não ver nada do que vejo, olhar cansado de quem sabe muito do que vem dos livros, do que dizem os “importantes”, do que é suposto ou devido fazer…costuma-se chamar de “olhar técnico”. Nesta altura, derivo, não sei se este que aqui está é aquele que costumava “curar”, ou simplesmente mais um dos “meus” que precisa ser curado…

Assinado: Um qualquer terapeuta…

Apelando à troca de experiências que procuro fomentar…

  • Como lidar com o “sofrimento” dos outros deixando espaço para a perseveração da estabilidade emocional do terapeuta?
  • Será alguém “doente” passível de poder “curar”?

 P.S: No mês de Agosto, a publicação das reflexões fará uma pausa. Volto em Setembro. Obrigado pelo apoio dado até ao momento. Boas férias.

2 comments on “Do outro lado do espelho

  1. Ana Morais
    24 de Agosto de 2010

    Ao longo do tempo vamos aprendendo a utilizar redomas para as coisas importantes do nosso Eu. Um bocadinho como a história do Principezinho. Protegemos as nossas rosas, sejam elas componentes integrantes da nossa personalidade, do nosso modo de viver, daquilo que é a nossa identidade, sejam elas as pessoas mais importantes para nós. Sim, porque também precisamos de proteger essas pessoas das emoções intensas e muitas vezes perturbadoras que encontramos no nosso dia-a-dia laboral. Mas atenção, essas redomas são transparentes, permitem ter uma visão ampla e aberta da Vida e permitem trocas necessárias e fundamentais com o exterior.

    Ah, é verdade, e aprendemos a colocar os espinhos nos lugares certos das rosas…

  2. lusfernandes
    24 de Agosto de 2010

    As experiências que temos, com as distâncias maiores ou mais pequenas, deixam sempre uma familiaridade, não no conceito tradicional de familia, mas no conceito de aproximação e conhecimento das tantas realidades com que nos deparamos, não esquecendo que o conhecimento e o sentir que vamos tendo não nos enriquece como terapeutas apenas, porque o ser terapeuta e ser pessoa são uma e a mesma coisa, mas enriquece-nos no que somos e no que podemos fazer os outros ser. Quem não se der no que é, perde muito do que pode fazer o outro ser. E neste sentido, quando como terapeutas nos damos, corremos este risco de abrir demasiado as camadas, de perdermos o rumo daquilo que não é terapia mas que é nosso.

    Não é uma tomada negativista, é uma tomada realista (pelo menos pessoalmente realista) dos riscos a que nos propomos.

    Obrigado pelo comentário. =)

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This entry was posted on 27 de Julho de 2010 by in Uncategorized.

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