Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

A física não percebe nada do nosso tempo…

“O tempo é relativo e não pode ser medido exactamente do mesmo modo e por toda parte.” A. Einstein

Ao procurar alcançar o “público”, ou pelo menos, aquele que pretende ser atingido, proponho um título audacioso para esta reflexão que marca o regresso do tempo de ócio e excepção, aos longos (em número e sentimento) meses, que se deparam até ao saudoso regresso ao ponto de que hoje partimos (subentende-se – as férias)

Assim, contradizendo-me nas palavras e afirmando a intenção primária – A física compreende muito bem o tempo. Albert Einstein, um estudioso do tempo na sua dimensão numérica, conceptual e mesmo cosmológica será o espelho de que os físicos entendem disto, ou conhecem o suficiente para falarem de aspectos que nós, a leiga maioria, não entende em profundidade e, a nível muito pessoal, em vontade. Mas se o tempo é relativo, como diria o génio, isso torna-o tangível para “físicos da emoção”, cientistas de uma vida que tantas vezes “acelera”, como outras, “abranda”, terapeutas num tempo, em que “não há tempo” para isto de compreender, relacionar, lapidar e, a seu momento, autonomizar quem precisa.

O tempo não só é relativo, como é subjectivo, uma construção pessoal mutável de uma instância reguladora que organiza todos os momentos da nossa existência – uma espécie de big brother, sempre por perto, ainda que sem as câmaras, as galinhas e a Teresa Guilherme (felizmente). As experiências, a sua significação e o prazer subjacente às mesmas, marcam o “relógio pessoal” que leva à compreensão de horas que nos parecem passar a correr (metafórica e literalmente) e outras que de forma penosa nos fazem conhecer todos pormenores infindáveis do relógio que fitamos com insistência. No entanto, o tempo não é só passagem, o tempo é estrutura, que marca momentos que foram, momentos que são e momentos que esperamos venham a ser – tempo e desenvolvimento “caminham” ligados. Desenvolvimento como evolução ao longo do tempo, o evoluir de uma história, de uma construção, de uma lei, do aquecimento global, das novas tecnologias, enfim, de tantas “coisas” banais como de realce.

Neste campo, se por um lado, pode pensar-se que, como terapeutas, o tempo não tem muito que dizer, a palavra desenvolvimento muda o “quadro”. Quantas vezes, neste tempo diminuto vivido a “saltar” entre as tantas terapias, são exigidos aos terapeutas desenvolvimentos tão forçosamente impostos como dificilmente concebíveis? Na mesma frequência, observa-se por parte dos terapeutas, a um movimento massificado de uma espécie ingénua de desrespeito pelo tempo necessário às complicadas evoluções pretendidas no decurso de uma intervenção. Com alguma preocupação reflectida, questiono-me que sinal pode traduzir a aproximação frenética do “ritmo terapêutico”, das propostas, da aproximação, da criação de laços, das conquistas, àquilo que obriga (será?) o estilo de vida actual, o stress dos horários, as finanças aplicadas ao segundo e a transformação da frase de Horácio, “carpe diem”, aproveita o momento, em “resolve diem”, com soluções que só servem para o já e o agora. Ao acreditar que qualquer intervenção centrada na pessoa não pode deixar de ter pontes fortes de ligação aos seus contextos (nas variadas dimensões), “a redenção” da intencionalidade e do modus operandi às actuais “imposições de vida”, funciona um pouco como a frase derrotista do “se não os podes vencer, junta-te a eles” – um género de queda, mas queda em estilo (ou suposto estilo).

O calendário romano, como o conhecemos, já teve mais de 20 alterações desde a sua concepção, ainda assim, parece cada vez mais pequeno, quando precisamos de mais horas nos dias, mais dias nos meses, mais meses nos anos. Diria que havemos de ser eternamente insatisfeitos, na nossa natureza, quando muitas vezes o que queremos, é mais de nós em nós e de nós nos outros.

             

 

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

Luís Fernandes

3 comments on “A física não percebe nada do nosso tempo…

  1. Ana Morais
    7 de Setembro de 2010

    Actualmente sabemos que podemos fazer muitas coisas com o tempo, muitas coisas diferentes, por vezes coisas demais. E também que não fazer nada precisa de um tempo. Precisamos de não fazer para perceber o que fazer a seguir. Também é assim na terapia, tem que haver um tempo para a consciência e para a consolidação dos ganhos. Tem que haver um tempo para reflexão. E passar para uma outra fase.

    • lusfernandes
      9 de Setembro de 2010

      Fico contente pelos comentários. Relativamente ao 1º comentário, estou de acordo na extrema importância do tempo de reflexão, ainda que ao ritmo de vida a que assistimos e de certa forma participamos, esse tempo vai sendo cada vez mais diminuto e não só, desvalorizado também. Isso realmente preocupa. Em relação ao 2º comentário, concordo também com a modificação constante dos mediadores do tempo, ainda que os calendários, o relógio e até os ciclos diários serem organizadores pouco pessoais, ao contrário do temporizador pessoal que tem muito a ver com a significação que se dá ao tempo, mediante as variações ao longo da vida, a cada momento, ao prazer/dor. A questão do calendário romano é muito bem observada, porque na realidade o calendário que conhecemos é gregoriano, ainda que a organização do tempo segundo os ciclos lunares tenha sido uma “ideia” originalmente romana. De qualquer das formas, rectifico esse lapso, o calendário que conhecemos é, realmente o gregoriano, ainda que as alterações sofridas remontam desde os antepassados Cesarianos.

      Muito obrigado pelos comentários.

      Luís Fernandes

  2. Manuel
    9 de Setembro de 2010

    Todos os medidores do tempo, onde se podem incluir calendários, já sofreram alterações, mesmo o nosso temporizador pessoal tem variações ao longo da nossa vida e a cada momento consoante o que nos vai na alma, se os tempos são de prazer ou de dor… no final, só não entendi a escolha do calendário romano quando o nosso é o gregoriano! O que de resto não muda nada, nem na intenção nem no conteúdo, apenas me deixou a dúvida formal pois não se trata do calendário que conhecemos habitualmente, a menos que o autor se guie pelo romano.

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This entry was posted on 7 de Setembro de 2010 by in Uncategorized.

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