Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

As balanças também se enganam…

“Contrabalançai promessas com promessas e estareis a pesar o nada” W. Shakespeare.

Em Portugal, como noutros países com outros vocábulos, quando se pretende afirmar a legitimidade de uma intenção/acção, a palavra “bom-senso” costuma aparecer como pústula dogmática de um sentido de “bondade” conscientemente colectivo que deve ser moralmente entendido – uma “quinta dimensão” social, que ninguém sabe exactamente o que é, a não ser que esteja ligados às acções a que se aplica (e ao contrário das séries ficcionais, estas acções não estão aliadas a ET’s e Óvnis, o que é uma pena). Este senso-comum, apelidado por alguns “teóricos”, como “estupidez generalizada”, com recorrência tem ajudado a justificar ou a mediatizar as opiniões (quase “julgamentais”) do que são juízos realizados sobre questões pertinentes nos mais diversos sectores sociais.

De facto, as balanças também se enganam, especialmente se forem baseados em pouco conhecimento de causa, logo aspiro a introduzir neste modo de pensar a situação profissional do psicomotricista – tema muito “quente” na nossa classe profissional, mesmo nos tempos de Inverno.

Com frequência tenho observado os discursos “inflamados” dos meus colegas (e meus também) sobre as exigências relativas à prática profissional, às poucas possibilidades de emprego, ao desconhecimento geral do trabalho do psicomotricista, à não regularização da profissão no quadro legal das mesmas, entre muitos outros lamentos. Com certeza estes requisitos, legítimos de quem apostou a sua formação neste ramo, carecem também de alguma reflexão sobre o caminho percorrido e sobre a natureza conceptual e prática desta área. As intenções, que têm que ser ambiciosas, não podem ser oníricas, não se pode imaginar uma plataforma directa entre a licenciatura e o mercado de trabalho que está cada vez mais cerrado pelas dificuldades macrosistémicas que atravessamos. O trabalho desenvolvido até agora, com uma fundamentação teórica forte da importância do psicomotricista, com o estabelecimento unilateral e peremptório das suas competências profissionais, com as tentativas insistentes e repetidas de junto das instâncias superiores tornar a utilidade da profissão real e concreta, fazem ver, fundamentalmente, dois aspectos distintos e a reflectir.

O primeiro relaciona-se com a demora natural deste tipo de processos, visto que ao nível a que a profissão quer ser reconhecida, o percurso leva o seu tempo, leva a sua creditação. O objectivo do trabalho em psicomotricidade não se esgota no “underground” das apelidadas (muitas vezes de forma demasiado simpática) de terapias alternativas, visto que o desígnio principal e exclusivo está na inclusão da psicomotricidade num quadro privilegiado de intervenções no âmbito das profissões de saúde entendidas como capitais. O caso do reconhecimento da importância da Saúde Mental é paradigmático e pode servir de exemplo para a forma vagarosa como estes avanços acontecem (neste caso o reconhecimento já foi feito, falta a melhor operacionalização, mas não falemos de outras “guerras”).

O segundo aspecto, prende-se com a facilidade em que se desequilibra na “balança” o que são as exigências realizadas e os movimentos para a concretização das mesmas. Somos reaccionários, de uma forma protestante, não necessariamente activa. Que peso damos nós, na defesa da nossa classe profissional, para a investigação como fundamentação da prática, para a formulação de novos projectos que dêem a conhecer o nosso trabalho e que nos permitem a entrada no mercado laboral, para uma continuada formação com vista ao enriquecimento da intervenção diária junto das populações?

A situação profissional é bastante complicada, apresenta muitos constrangimentos, mas surge como uma oportunidade para responsabilizarmo-nos, pelas competências que nos foram reconhecidas, em defender o nosso “título” e pensar que o observador e o cenário que observa são inseparáveis.

Se o senso-comum é uma “estupidez generalizada”? Diria que não vou tão longe, nem deixo de estar perto, espero ainda ter dado uma profícua contribuição a esta discussão, sabendo que isto de pesar “prós e contras” tem a sua arte e ou muito me engano ou não sou louro nem tenho Campos Ferreira no nome.

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

One comment on “As balanças também se enganam…

  1. Ana Rodrigues
    14 de Setembro de 2010

    Não haverá nunca uma profissão sem profissionais que se revelem, que se mostrem e que exerçam em cada dia as suas convicções.

    Em cada momento, porque o mundo muda muito depressa…

    Força Luís.

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