Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Os acessórios são acessórios!

“Ter opiniões definidas e certas, instintos, paixões e carácter fixo e conhecido - tudo isto monta ao horror de tornar a nossa alma num facto, de a materializar e tornar exterior” F. Pessoa

Em tempos de crise financeira, tudo se paga e se compra, (quase) tudo adquire em si um valor material, ora pelas suas características físicas, ora pelas imputáveis transições genéricas para aqueles papelinhos coloridos com monumentos engraçados e que com esforço moram na carteira (pelos menos aquelas com um azul mais escuro). Com a “monetarização” constante do que nos rodeia, fica-se com a sensação de que somos, na realidade, “escravos do que precisamos”, como diria Jorge Palma, que estamos constrangidos (incompreensivelmente impedidos) às possibilidades do que podemos ter ou obter, como “soar” melhor neste contexto. Dado este “cenários de bruxas”, apraz repensar que peso tem o que é material numa intervenção terapêutica, que carácter utilitário ou indispensável pode ter este recurso.

Um dos primeiros pressupostos na análise ao cunho do material na intervenção terapêutica prende-se com a intenção e a leitura realizada a esta utilização. A relação de qualquer sujeito com o material é uma relação que podendo não ser significativa é, sem dúvida, indicativa. Surge a um outro nível de análise como parte de um rol de elementos extensos de compreensão do sujeito e da especificidade do seu contacto com o meio circundante, mediante diversas situações, intencionalmente preparadas para que lhe coloquem diversificados desafios.

Os materiais surgem como espectaculares extensões das funções corporais, que conferem ou realizam o upgrade momentâneo (que se quer duradouro) de capacidades pessoais, na sua generalidade, ligadas à funcionalidade. Através destes, observamos relações bi-modais estritamente sistematizadas com o sujeito, que exerce sobre o objecto uma determinada acção que será respondida pelo mesmo com uma acção ou conjunto destas, previamente controladas e que envolvem um grupo de identificações precárias, pelas “pontes” unilateralmente humanizadas que a relação objecto-sujeito oferece. Por outras palavras, compreender que “estar” com uma pessoa não é, de longe, o “estar” com um objecto – ainda que o contacto com este último possa ser importante na intervenção. Nesta questão, aparentemente colateral, a psicomotricidade ganha “corpo” surgindo como uma área de intervenção que enfatiza o “poder” que o corpo tem de se tornar o nosso principal meio de acção, expressão e compreensão do que nos rodeia. A solução parece simplista, com a afirmação que não conta muito o que se tem, mas o que se faz com o que se tem, no entanto, no actual “estado das coisas” penso ser esta a ideia que nos deve libertar e levar à procura de novas resoluções.

Com o objectivo de defender a verdadeira génese de um comentário pessoal com a confirmação da individualidade do mesmo, afirmo uma posição que reconhece os materiais como ajudas muito importantes na intervenção, mas que não podem ser “grilhões” ou factores de não realização da mesma.

Assim, como apoteótica e dramaticamente nos disse a nossa Ministra da Educação, “temos que desenvolver o cérebro” – e nisto concordo com a Senhora Alçada, numa educação a estilhaçar-se aos poucos, não será boa ideia ficar escravizado pelos materiais, será sempre mais sensato ficar atado às ideias (desde que sejam próprias… e não de um fellow americano).

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

2 comments on “Os acessórios são acessórios!

  1. Claudia
    21 de Setembro de 2010

    Bom dia Luis…
    todos sabemos que não vivemos sem os materiais que nos rodeiam, é com eles que nos desenvolvemos, são eles que nos estimulam.

    Mas como psicomotricistas que somos, sabemos que não nos podemos prender só aos materiais, pois muitas vezes eles faltam.

    Penso que a criatividade é o melhor remédio, e a melhor forma de desenvolvimento.

    Não podemos deixar de ser criativos!

    Beijos, Cláudia P.

  2. Rute
    9 de Outubro de 2010

    Olá,
    gostei particularmente deste post (em relação aos poucos que ainda li). Vou seguir atentamente as publicações, são reflexões deveras interessantes e importantes.

    Aqui deixo os meus parabéns!!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on 21 de Setembro de 2010 by in Uncategorized.

Navegação

%d bloggers like this: