Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Manifesto para Totós

“A educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida, é a própria vida” J. Dewey

Epígrafe.

Na era de vanguarda tecnológica do nosso lado ibérico, Portugal precisava ligar-se a uma gama de livros responsáveis por vendas exorbitantes desde a sua edição, livros com uma capa amarela simpática e que são sempre direccionados a “totós” (dummies) – Word para totós, Windows para totós, culinária para totós, entre muitos outros. Neste contexto, Isabel Alçada decide inovar e lançar uma versão audiovisual de – Educação para totós.

Como o “dia tem, todos sabem, 24 horas” e eu não vos quero “roubar” minutos, deixo-vos com alguns excertos sobre este manifesto, incidente num ponto que, realmente, interessa a todos (professores, famílias, crianças, terapeutas…enfim portugueses).

Pontapé de Saída – “Venho desejar um bom ano lectivo a todos, alunos, professores e até às famílias. Quero que cada um de vocês pense no seguinte…”

Costuma dizer-se que a melhor forma de abrir uma comunicação é com uma piada, penso que neste campo Isabel Alçada não descurou. O problema vem com a definição do alvo da mensagem, que começa, desde cedo, a marcar o local do sepulcro desta. A direcção da mesma, aponta para sujeitos tão distintos dos seus papéis que uma mensagem que comunicasse algo para todos teria que ser muito diferente do que se ouve nos minutos seguintes, além de que tentar falar numa só “língua” para indivíduos de “países” etários e empíricos tão diferentes é uma tarefa árdua, para a qual a Ministra, não estava preparada.

Ordens do treinador – “Se cada um dos alunos das nossas escolas seguir as orientações do seu Professor/a, se estiver concentrado na aula, estiver com atenção, realizar os seus trabalhos, se conseguir resolver os problemas, se conseguir ler bem, escrever bem, aprender os assuntos que vêm nos livros (…) vai conseguir bons resultados.”

A este nível estamos numa equação sem incógnitas, porque finalmente, alguém consegue dizer tudo o que os nossos alunos têm que fazer – tantos anos de investigação para nada. A “lista de supermercado” que Isabel Alçada oferece dada numa relação simplista de causalidade (se fizeres isto, tens aquilo) pode parecer quase insultuoso para alunos e professores, para os primeiros porque lhes mostra um sem número de obrigações com uma promessa de bons resultados (poucas vezes apelativa), para os professores, pode dar a sensação que estes por engano tenham estado a exercer a sua profissão noutro país que não o lusitano. O processo educativo está longe de ser fácil e, estritamente casuístico, pois quem lida com o mesmo de forma directa ou indirecta percebe isso muito bem. Menos um ponto para Alçada.

A Ministra porreira – “Estudar é uma espécie de desporto do cérebro, eu já falei com muitos meninos sobre isto, (…), e eles, rapidamente, conversam sobre esta questão, estudar desenvolve o cérebro.”

Neste particular, Alçada tenta redimir-se com uma mostra de proximidade com os alunos, no entanto, o “tiro” sai ao lado – quantos alunos falariam, “rapidamente”, com a ministra sobre a capacidade do estudo em modificar o cérebro? O problema será a falta de estudo, ou a incapacidade de criar as condições para que isso aconteça? Se estudar é desporto, devo dizer, a título de exemplo metafórico, que não se joga futebol, sem bola, balizas e jogadores.

Epílogo

Num tom mais sério e menos infantilizado, penso que ficou certo para todos que a mensagem relativa à importância da Educação não passou como desejado, que a importância que a mesma tem a nível pessoal e social não passa, exclusivamente, pelo “desporto do cérebro”. Tal como nos classificados do jornal, precisa-se de um Ministério da Educação que reclame a si responsabilidades neste processo que se quer integrado com as áreas da Saúde e Trabalho, para criar metas bem visíveis para todos os envolvidos – metas que não se fiquem pelo “orgulho” ou os “bons resultados”.

A inovação nem sempre dá bons resultados (ainda por cima se “cozinhada” com a imitação) por isso espero que as atenções se voltem para o que realmente importa e abandonem estes fantasmagóricos mobilizadores de massas – Ainda assim, sou sincero e não excluiria um manifesto para a Saúde em forma teatral, seria “delicioso” ver Francisco George a fazer o papel de vacinas do H1N1 em stock ou Ana Jorge a representar as extensas listas de espera dos centro de Saúde.

P.S: As críticas realizadas são inteiramente direccionadas para o manifesto em questão, não visando qualquer ideologia política ou o trabalho desenvolvido pelos Ministérios mencionados.

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

One comment on “Manifesto para Totós

  1. sandrine ribeiro
    3 de Outubro de 2010

    É de facto lamentavel ler essas afirmações expostas no que toca à educação das crianças deste país. Nós terapeutas sabemos o quanto único pode ser a educação de uma criança e que não nos baseamos em fórmulas mágicas para tornar essa educação mais positiva mas sim na especificidade de cada uma!
    Está aqui um excelente trabalho! Continuarei sem dúvida uma leitora regular!

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This entry was posted on 28 de Setembro de 2010 by in Uncategorized.

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