Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

“Não faças só o que te digo, nem tudo o que faço”

“Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssimo, com os direitos de Alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas...” E. Queiroz

Ditados são isto. Frases feitas, mini-conjecturas de fácil compreensão (e tantas vezes aplicação). São cultura, o que há do povo em nós mesmos, o que nos dizem e apregoam como verdade – aceite ou não por quem a ouve. No campo da verdade, no que nos parece certo e adequado, as teorias também têm este cunho – o de nos parecer tantas vezes certeza, que por assim ser, a sentimos “mentira” nas excepções sobrepostas de encontros de estampa com “as vidas”, que vão fazendo parte da nossa. Esta realidade faz pensar, quanto de excepção se confirma nas nossas vivências e, não menos importante, como as assumpções que lemos e estudamos tocam a esfera do real.

Como técnicos, de formação superior, o contacto com a prática e com os modelos teóricos é hábito diário, por vezes, um automatismo que fundamenta a capacidade e competência profissional – um fazer pelo prazer de fazer e um saber para poder fazer. Uma tríade perfeita entre conhecimento teórico, aptidão prática e o “jogo” dos dois últimos seria (sem crucifixo nem ideologia santa) o ideal utópico de um modelo de actuação, do psicomotricista e de outros profissionais. A questão que impressiona está na diversidade de casos e situações que surgem na prática e que fogem aos padrões de resposta maioritariamente verificados e com os quais se aprendeu a formular hipóteses paradigmáticas de resposta – ou seja, quando a vivência ganha em sprint às conjecturas teóricas e nos deixa desarmados a uma condição muito mais pessoal do que intelectualizada, não há comportamentalismo que nos mostre que causas fizeram os efeitos, desenvolvimentalistas que nos façam perceber o que fazer naquela etapa de vida, psicodinâmica que seja relato interno do que acontece…o contacto directo com a(s) pessoa(s) que está perante nós é nesse momento uma perspectiva, define um modo de actuar, um modo de receber e de dar, numa ligação que pode ter muito do que por outros foi dito e vivido (teorizado), mas tem, certamente, muito mais de próprio e de singular. O puzzle não é, de todo a teoria, onde a pessoa se encaixa como peça, pelo contrário, a pessoa será esse “grande labirinto”, onde há espaço para ver e sentir concreto o que se aprendeu, com a prerrogativa de muito de novo para compreender e descobrir – a chamada experiência, no seu signo de uma acção adjectivamente melhorada e construtivamente explorada.

Para finalizar, deixo em aberto a hipótese de o suficiente não estar numa cabeça repleta de boas ideias, grandes intenções, glossários de boas práticas e missivas de como fazer, porque quando a prática mostra que as galinhas também podem ter dentes, que há porcos que voam e que existirá sempre excepções que confirmam as regras, a disponibilidade tem que ser outra, a entrega e a capacidade de reflexão torna-se exigente – tanto como estimuladora. A teoria enquadra a prática, fundamenta-a, cria ligações e identificações, mas não é espelho do vivido, é um “jogo de sombras” – a teorização faz perceber a ideia, mas não mostra a realidade como ela é.

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

2 comments on ““Não faças só o que te digo, nem tudo o que faço”

  1. Marta
    5 de Outubro de 2010

    Olá Luís!

    Como vês, às terças-feiras tenho sempre que fazer… E mais uma vez te digo, é um prazer ler as tuas reflexões.
    Relativamente ao tema que abordas hoje, estou plenamente de acordo contigo. Apesar da (ainda) pouca experiência práctica, concordo com o facto de que aquilo que muitas vezes vivenciamos, como profissionais, vai muito para além da teoria, do que vem nos livros… Penso que a teoria é apenas um ponto de partida ou um suporte para a práctica, pois muitas vezes não mostra toda a realidade. Considero também que é nos momentos em que aparece algo novo, que como profissionais somos postos à prova e claro, é uma oportunidade para também “crescermos em competência”.

    Bjito Luís e boas reflexões!

  2. sandrine ribeiro
    8 de Outubro de 2010

    Também estou totalmente de acordo. Com muita pena minha ainda não tive a minha experiência prática que tanto desejava pois este País não está para ajudar ninguém mas, dos estágios realizados, dos voluntariados vividos posso dizer sem sombra de dúvida que senti muito mais na pele a magia da psicomotricidade do que nos livros e apontamentos recolhidos. Cada experiência aloja-se no nosso pensamento durante os dias, meses e anos e faz-nos ser mais e melhor.

    Mais uma vez, parabéns por esta iniciativa!

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This entry was posted on 5 de Outubro de 2010 by in Uncategorized.

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