Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

A fama não tem medidas de austeridade….

“Nenhum pensamento é imune à sua comunicação, e basta já expressá-lo num falso lugar e num falso acordo para minar a sua verdade” T. Adomo.

Num país que nem de tanga se compõe, a austeridade deve ter sido, provavelmente, a palavra mais utilizada durante a última semana e, acoplada a este vocábulo, a pronúncia de uma crise presente e eufemista que ganhou contornos de estado geral de alarme hiperbolizado, sem nadadores salvadoras disponíveis e por arrasto as suas proclamadas “bóias” de salvação internacionais – atenção que esta referência tem tudo que ver com o FMI e, como é inteligível, nada relacionada com as famosas Baywatch’s. Com disposição para vestir uma “roupagem” mais séria, centro a discussão na questão do anúncio, ou melhor, do poder que tem a divulgação de algo, a sua tentativa de fama.

No paralelismo com a crise, surge a preocupação reflexiva sobre a forma como a divulgação da profissão do psicomotricista está a ser feita – em presença/frequência e em qualidade – no fundo, o que define a nossa fama (não no estilo glamoroso do termo). A divulgação tem, realmente, este preço, de se bem construída ser impulsionadora e concretizadora de expansão do que é anunciado, em análogo à sua capacidade de prejudicar de forma terminal boas ou más ideias/projectos que se procurem transmitir.

Ao nível da Reabilitação Psicomotora como área de enquadramento profissional, têm sido realizados os maiores esforços de divulgação e defesa de algo que todos reconhecem – a especificidade técnica e o inexequível papel nas equipas multidisciplinares – mas que tarda em se fundamentar como uma profissão tão respeitada e enquadrada como outras. Numa análise, esforçadamente imparcial, subsiste a ideia de que a um grau macrosistémico, a apologia da nossa importância tem tido significativos avanços – principalmente junto das entidades superiores (não divinas neste caso) – no entanto, a um nível microsistémico as ideias nem sempre são difundidas de forma a passarem a ideia que, acredito que querem passar. Mesmo com todos os PEC’S, há coisas em que não se pode economizar e nisso, nós, psicomotricistas temos de deixar de economizar, necessitamos de encontrar pontes de comunicação que nos permitam transmitir o que fazemos de forma tão simples como exacta. As ideias erráticas e despretensiosas de que não somos fisioterapia, que fazemos umas “coisas com o corpo”, ou que ajudamos pessoas com dificuldade/deficiência, prejudicam e muito a nossa imagem. A comunicação tem este dom, que se baseia muito mais na forma do que no conteúdo das suas mensagens. Ao lateralizar a discussão, tome-se a história de Copérnico, o matemático e astrónomo polaco, que ousou afirma essa idiotice de que a Terra girava em torno do Sol. O conteúdo da mensagem estava certo, porém difundir a mesma de forma pouco organizada e não utilizando qualquer evidência experimental a não ser os seus olhos direito e esquerdo, valeu a Copérnico uma escalpelização injusta em praça pública e uma morte ironicamente “misteriosa”. Nesta divulgação do papel do psicomotricista corre-se risco metaforicamente semelhante, de cair na insignificância, na banalização forçada de uma mensagem que tem que passar, pela sua utilidade e importância.

A grande fatia da realidade mostra que somos conhecidos como os técnicos que “fazem um pouco de tudo”, não me incomodando a afirmação, não sei o quanto desta não nos prejudica, porque usualmente quem faz bem tudo, não faz bem nada. No que toca à divulgação, penso que a questão central será mesmo esta, a preferência por um desconhecimento, em detrimento de uma ideia errada do que somos enquanto profissionais.

Como nota final fugindo ao dogmatismo da “vitória” da forma sobre o conteúdo, reconheço que por mais enfatizada e intelectual que seja a defesa de uma mensagem, se o seu conteúdo não for minimamente plausível, esta definhará como a economia portuguesa. A contexto, a mensagem da esperança de uma saída desta crise em que nos encontramos, apesar de muito enfatizada e intelectualmente defendida contínua a vergar-se perante a mensagem que o fundo rugoso e monótono das carteiras continua a proclamar. Enfim são sempre excepções e esta, dolorosamente, foge à regra…

 

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão, lembrando que outras profissões passam por semelhante situação. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

One comment on “A fama não tem medidas de austeridade….

  1. Filipa
    17 de Outubro de 2010

    Grande amigo:

    Sábias palavras, e afinal o que é a psicomotricidade?? estás a trabalhar, fazes psicomotricidade ou fazes um pouco de tudo?
    Somos sim multifacetados, somos psicologos, professores de educaçao fisica somos pai e mãe somos amigo! E na especificidade da psicomotricidade encontramos sim algumas das respostas para as nossas 7 profissões. Trabalhamos com pessoas e nao com maquinas, o trabalho de cada profissional nao pode ser metido em caixas arrumado como eu faço isto tu aquilo, importa sim faze-lo bem, e dar significado as coisas! e quando sentimos no peito a sensação de dever cumprido e que crescemos como profissionais na certeza de bem estar e de mudança do outro isso sim é Psicomotricidade!
    Um abraço!
    ” Eu sou eu e o meu corpo”

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This entry was posted on 12 de Outubro de 2010 by in Uncategorized.

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