Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

“Deixa um espaço livre para te saberes a ti”

“Não queiras saber tudo, deixa um espaço livre para te saberes a ti” V. Ferreira

“Tens de te comportar no restaurante” ou um “na Igreja, não se grita” tão usuais como o clássico, “olha-me para esta birra no meio da rua”, lugares comuns personalizados por frases atiradas em tantos espaços como bagos de arroz no território chinês (e cada vez mais no português – a invasão friendly dos orientais). Nesta “aventura” que é a vida, pode-se dizer que numa coisa estes humanos que coabitam a terra são realmente bons – o potencial de adaptação do homem ao que o rodeia é enorme. Ainda assim, mais que nunca, se notam, ou são notados comportamentos desadequados de crianças, jovens e possivelmente, na sua maioria, dos próprios adultos. Estas formas de responder “fora do encaixe” social com peças frágeis surgem, grande parte das vezes, como espelho de desconforto, que nada tem que ver com a individualidade e diferença, um dos bens de maior valor no que somos.

              A conspurcação da compreensão dos espaços sociais, torna o problema da desadaptação uma constrangimento imenso que ultrapassa, claramente, a dinâmica de desenvolvimento pessoal mas que tem impacto grande na forma como o “jogo” social de relações e interacções se concretiza. Esta dificuldade em, de forma consciente ou inconsciente (como tantas vezes acontece), “estar” em diferentes locais mantendo uma estabilidade e coerência próprias de uma originalidade individual e respeitando um conjunto de normas que tornam agradáveis e, porque não felizes, os momentos com os outros tem se desvanecido – um pouco como a “nossa” privacidade, escalpelizada em “Casas dos segredos”, tão escondidos como um elefante atrás de um guardanapo.

O estar no espaço social não é uma aquisição naturalmente darwiniana, muito mais um processo resultado de experiências significativamente marcantes nos “contentores emocionais” que são as nossas relações primárias. A representação psíquica de um espaço afectivo de segurança com pontes fortes com um interior organizado e conhecedor dos seus esconderijos, permite uma capacidade muito útil de “ser o outro” para perceber o que fazer comigo mesmo nas mais diversas situações sociais. O jogo dos espaços que João dos Santos defendia, entre o que é um espaço corporal, operacional, convencional e significativo exige noções muito básicas de continuidade e descontinuidade nas relações, assentes numa construção realizada no primeiro meio em que o homem se substancia – a mãe. A saída gradual da fusão primeira consigo mesmo (confundível com naturalidade com a figura materna) ocorre num todo contínuo em que o pai/figura paterna aparece numa tríade que permite o terceiro elemento organizador do “espaço outro”, fora de si – permite uma destruição de um egocentrismo que levanta o véu da posição diferenciada do outro face a uma mesma realidade – a magia das relações, o processo acção/reacção adaptativo.

Enquanto o IVA não sobe nas pescas, “puxo a brasa à minha sardinha” e realço o papel importante da psicomotricidade no trabalho terapêutico centrado na optimização da adaptação aos diversificados contextos sociais. O espaço de intervenção psicomotora pode neste sentido, além de ser um campo de interacções ricas em desafios e soluções, ser também um simulacro de situações sociais num recanto de ouvidos e reflexos das respostas do indivíduo de forma muito menos feroz do que é a realidade social, que responde com agressividade, quando com agressividade é presenteada – “olho por olho, dente por dente”.

A “epopeia” é perceber que a realidade que temos e aceitamos somos nós, consideremos isto real ou não…e se há alguma coisa da qual não podemos fugir é deste nós que nos carrega. 

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão, lembrando que outras profissões passam por semelhante situação. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

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This entry was posted on 19 de Outubro de 2010 by in Uncategorized.

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