Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Não me revelem todos os OVNI’s.

“Os média não são apenas a mensagem. Os média são uma massagem. Estamos constantemente a ser acariciados, manipulados, ajustados, realinhados, e manobrados." J. Skaggs

Há que lembrar com pensamento saudoso os tempos em que os OVNI’s ainda nos metiam debaixo da cama e a imaginar como homenzinhos verdes com mãos em forma de leque e corpo de vassoura, conseguiam ser inteligentes ao ponto de construir objectos voadores, parecidos com ovos estrelados que percorriam o “nosso” céu e assustavam agricultores. Hoje em dia, já não há quase nada “não identificado”, no mundo de informação em que estamos submersos, o desconhecido é crime ou pecado, considerando a justiça moral assumida. No trabalho terapêutico com as crianças, o desvanecimento do desconhecido e o obsoleto filtro na informação e conhecimento que as mesmas vão “absorvendo”, traz complicações claras, numa mistura de mundos que não faz mais do que a perda, por vezes irremediável, do cantinho próprio do que é segredo, do que é imagética.

No contacto com crianças, nos mais diversos contextos, nota-se a vivacidade como relatam o que ouvem e vêem – verdadeiras narrativas de mundos que lhes invadem de forma consentida. De certo que a maior parte da informação não é memorizada, demora segundos ou poucos minutos a ser esquecida, mas como nos dias tempestuosos, quantos mais horas andarmos fora de casa, mais chuva nos corre pelo cabelo, assim, ainda que a criança tenha uma capacidade de retenção diminuta, neste manancial imenso de informação que lhe alcança, alguma é, realmente armazenada, em especial, pela significação interior que a criança lhe confere. Se a cultura e compreensão do mundo fosse medida em quantidade, poderia dizer-se que este acesso frenético ao “mundo informacional” era reflexo da evolução para um Homo Tecnologie – que sabe tudo a toda a hora (uma omnipresença tão fantástica como perturbadora), no entanto, o desenvolvimento é construção de nós mesmo e do mundo que nos rodeia e, neste capítulo, as fundações de qualidade deixam o “número” de lado.

A “magia” das construções interiores é a força da sua diegese, face de uma identidade, que vai perdendo com despretensão o encanto próprio das inseguranças naturais que lhes são legítimas e essenciais ao seu desenvolvimento. O consumo imediato, não filtrado e desorganizado de um mundo actual de reality-shows (que passam às 21horas em canais generalistas), permite uma mentalização e reflexão pobre sobre o que é exposto à criança. Como se não bastasse a televisão, a verdade é que os gadgets existentes permitem uma obtenção do mundo que nem os pais conhecem, ou pior, que não sabem minimamente que a criança tem conhecimento. A questão não é ser anti ou pró tecnologia, antes perceber que no rumo que as coisas tomam a privacidade está em estado terminal e o espaço próprio interior é o próximo a ser vitimizado.

Quando há bem pouco tempo, ouvi falar sobre os direitos da criança, pensei na relevância desta questão – Quando respeitaremos a criança e lhe daremos o espaço para continuar a ser o que é? Para manter um imaginário com fantasias inimagináveis de como se fazem os bebes, de como o homem foi à lua e de que é feita a baba de camelo (recordo-me deste meu espacinho de desconhecido…). A criança não pode crescer antes do seu tempo e alterar a ordem das coisas é criar barreiras e desbravar os cantos “carinhosamente” desconhecidos/imaginados pelas crianças. Todas as perguntas devem ter uma resposta, mas nem todas as respostas podem ser as que respondem às perguntas colocadas – nisto pais, educadores e técnicos têm responsabilidade em conter e tornar progressivamente “crescidos/conhecidos” estes “pequenos” recatos. Deixem as crianças imaginar…


Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão, lembrando que outras profissões passam por semelhante situação. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

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This entry was posted on 26 de Outubro de 2010 by in Uncategorized.

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