Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Numa perpendicular à “lifeline”

“Quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória humana." M.Yourcenar

Há linhas que não se apagam. Há linhas em que o som desse “lápis” que as desenha ecoa continuamente, ora leve e suave, ora agressivo e provocante, as torna secretamente “nossas”. Há linhas que são caminhos, infindáveis ou curtos, espaços breves ou longos de continuidade. É verdade, há linhas que são vidas e vidas que são linhas disfarçadas de algo mais que as compõe.

Em todos há esta história, de nós mesmos, como diriam os ingleses, a “lifeline”, linha da vida que marca os acontecimentos significativos que espelham os tempos da nossa existência. A complicação de imaginar uma vida sem ligações entre um passado, presente e uma visão de futuro, é arrebatadora, electrizante, enfim, demasiado angustiante. As dificuldades que, hoje em dia, se observam em crianças e adultos que não conseguem organizar-se na sua vida emocional e social é gritante, pelos retalhos espaciais que compõem o seu âmago temporal e os deixam numa situação de “desconhecido interior” tão vazia como parece – uma montra de insegurança, desadaptação, de um rio de acontecimentos que têm impacto mas que não significam momentos…tudo é episódico e acima de tudo, desconectado.

A verdade é que todos os dias são “os primeiros dias do resto da tua vida” como diria Sérgio Godinho, mas a frase é “batida” e seja em que face se apresente o passado, pessimamente vivido ou saudosamente recordado, não há como apagar o que já foi consumado e vivido – as nossas capacidades emocionais e cognitivas não o deixam, o passado é sempre elemento integrado – de forma harmoniosa ou abrupta – numa linha delicada e contínua ou numa linha disgráfica e borrada pela correria das “coisas”. A forma como se compreende o que passou determina a compreensão do que se passa. Quando falo em compreensão, refiro-me de uma metáfora de leitura nas páginas certas. De saber encaixar significativamente os eventos marcantes e vesti-los de uma altura, uma fase de vida, que referencia o “quando” e o “onde” nos encontramos, que guia o “depois”.

Quando a capacidade de perceber esta linha da vida está como disse acima, sem ligações, a intervenção terapêutica quer-se reconstrutiva desta capacidade de se conhecer e de pensar em si mesmo no agora e no que foi. A intervenção psicomotora pode ter especial importância neste campo, o corpo é a mais forte das memórias e não há nada que não seja vivido que não passe por nós, que não passe pelo que injustamente chamamos de nosso corpo, quando o nosso corpo somos nós mesmos. Utilizar o espaço corporal para representar memórias, reconstrui-las, comunicá-las para que sejam enquadradas, ouvidas e organizadas por um terapeuta genuinamente disponível para as histórias da história de vida da criança ou adulto.

Na intenção de regressar atrás nesta reflexão, finalizo com o pensar que esta desorganização na linha da vida é também, reflexo grande de ausência de outras linhas significativas, perpendiculares ou paralelas que choquem com a nossa e nos façam continuar, revestidos de uma capa protectora de recordação a que chamamos de pessoas.

 

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão, lembrando que outras profissões passam por semelhante situação. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

2 comments on “Numa perpendicular à “lifeline”

  1. Ana Morais
    2 de Novembro de 2010

    Bem, Luís, este post eu não podia deixar de comentar… Porque quando trabalhamos com pessoas com demência ou outras perturbações da memória torna-se bem evidente o papel desta na construção da nossa identidade. E é muitas vezes pelo corpo (como escreves tão bem, nós mesmos) que recuperamos alguns fios perdidos ou pendentes dessa memória, tão importante para o reconhecimento próprio e do outro. E é muitas vezes pelo corpo que a pessoa expressa o seu ser único, muitas vezes já não o conseguindo fazer verbalmente.
    Quanto mais trabalho com o adulto, mais me convenço que o reforço das memórias e, consequentemente, o reforço da identidade é fundamental na criança.
    Aconselho vivamente a todos os psicomotricistas a leitura de António Damásio. Os seus fundamentos teóricos, as suas reflexões podem constituir bases importantes para o trabalho psicomotor.
    Mais uma vez obrigada, Luís, por estes textos brilhantes que partilhas generosamente.

  2. lusfernandes
    2 de Novembro de 2010

    Obrigado pelo comentário que senti, sentido (aparte o pleonasmo) por quem na prática trabalha com histórias de vida desfragmentadas. Vou mais longe, dizendo que ler Damásio é fundamental para qualquer psicomotricista, e agradeço esse conselho nesta discussão.

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This entry was posted on 2 de Novembro de 2010 by in Uncategorized.

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