Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Garantias, prazos de validade e outras coisas de respeito!

“O homem não tem um corpo separado da alma. Aquilo que chamamos de corpo é a parte da alma que se distingue pelos seus cinco sentidos" W. Blake

As garantias são complicadas. Voam-nos das nossas possibilidades com a perda do seu prazo de validade, da caução, disto e daquilo que lhes faz desvanecer o valor. Mas uma garantia é também uma zona de conforto, um saber que impacto temos e que resposta terá o que fazemos – é previsibilidade organizativa, numa réstia de segurança efémera em tempos de constante instabilidade e do ir-se eléctrico do tempo. Como nem tudo está embalado e pronto a vender, urge reflectir sobre que garantias fruímos sobre nós mesmos – o nosso corpo. Numa altura em que mil e uma intervenções insistem em invadir e violar o espaço corporal próprio, até que ponto a força experimental de “novas curas” pode colocar em causa a saúde e bem-estar, a segurança e confiança, a harmonia e a estabilidade?

Ainda não somos produtos chineses –  apesar da luxuosa e simpática recepção realizada a um presidente chinês que abomina muitos dos direitos humanos básicos, muitas das nossas garantias enquanto homens –  no entanto, vê-se com facilidade o emergir de “produtos terapêuticos” que incitam ferozmente à sua experimentação, ao colocar a pessoa numa situação de expectante esperança na solução de problemas sobre os quais não há, de facto, o principal – a “voz” activa da pessoa no processo. Como na catástrofe crescente da obesidade, “o que não mata engorda”, neste campo, “mal não faz” ou “pior do que está não fica” (como o deputado brasileiro apregoou) são as frases que marcam o que vinha a referir – o negócio de uns acalma o desespero de outros e vê-se agora um corpo não respeitado, levado a extremos na sua capacidade física, a ficar irremediavelmente marcado com cicatrizes de intervenções de suposta terapia, a permanecer ironicamente adormecido por fármacos messiânicos…

Numa altura em que os portugueses tomam reacção contra a crise financeira e as escolhas governamentais, é também tempo de saber pensar as “pequenas” coisas e saber que não há como permitir que em qualquer processo terapêutico não sejam dadas garantias fiéis e concretas de até onde o terapeuta pode ir, de que objectivos tem a terapia e de que os meios importam, independentemente do fim escolhido. O corpo não é um saco de carne com articulações, ossos e cabelos é a identidade individual, tudo o que de mais intimo cada pessoa tem.

No campo da intervenção psicomotora, torna-se imprescindível a preocupação em reflectir na possibilidade e caminhos de uma terapia, na capacidade que o terapeuta tem para encaixar os problemas que a pessoa lhe traz, da vontade real em produzir indutores de mudança no paciente/cliente. A colocação de uma chave (uma proposta) capaz na fechadura errada é problemática, força a entrada, danifica a receptividade da pessoa – cristaliza a motivação e esperança desta na transformação positiva. As propostas do psicomotricista só podem ser protectoras e com garantias de segurança, nas metas definidas – sempre em conjunto, na relação terapeuta/paciente. O “cuidar” é assim obrigatório, não exige inexistência de desafio e confrontação, mas leva, repito, a uma atitude constante de reflexão sobre o processo terapêutico.

A compulsividade da pessoa em sofrimento na procura de uma solução fácil e rápida é totalmente compreensível, agora, cabe a técnicos competentes nas mais diversas áreas irem defendendo o seu cunho profissional e marcando posição face à inevitabilidade ética e moral de ser e defender o que é ser pessoa, na sua integridade e globalidade.

 

 

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão, lembrando que outras profissões passam por semelhante situação. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on 9 de Novembro de 2010 by in Uncategorized.

Navegação

%d bloggers like this: