Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Duas caras na mesma expressão

“Ninguém é resiliente sozinho” B. Cyrulnik

Prefácioporque a vivência também merece ser história – Na contextualização da situação prática que, de seguida, irei relatar, importa realçar que diz respeito a uma sessão de psicomotricidade com um grupo de 4 crianças, com graves problemas de comportamento e com dificuldade no funcionamento em grupo. A actividade consistia no transporte de um objecto de grandes dimensões de um lado ao outro do ginásio, contornando os obstáculos de percurso e tendo em conta que todos os elementos da equipa teriam que tocar no objecto durante a sua transposição. Depois das várias tentativas a actividade é realizada, no entanto, o que trago para reflexão é a discussão sobre a mesma.

Live act porque não se pode discutir em fundo vazio, apenas em “sumos teóricos” sem a “polpa da prática” –

Terapeuta – Vamos lá então sentar para conversar sobre este jogo…Gostaram de jogar?

Criança 1 e 2 – Sim! Podemos jogar mais uma vez?

Criança 3 – Eu não gostei, é uma seca…

Terapeuta – Ok. Temos dois meninos que gostaram e outro menino que não gostou. Porque é que estes meninos gostaram?

Criança 1 – Porque era divertido, tínhamos que nos desviar dos blocos e andar com cuidado.

Criança 2 – E tínhamos que estar sempre a agarrar o bloco (objecto transportado)!

Terapeuta – Isso para vocês foi divertido, então e porque é que não foi divertido o jogo para ti? (dirigindo-se à criança 3)?

Criança 3 – Porque não conseguia andar mais rápido, eles estavam muito lentos e não ouviam o que eu dizia para fazerem!

Criança 1 – Ele é que ia deixando cair o bloco! (apoiada pela criança 2)

Terapeuta – Esperem, ainda nem falamos do jogo, e todos podem ter opiniões diferentes, uns podem ter gostado e outros não.

Primeiros pontos: a importância dada à conversa no final dos jogos, como ponto de partida para a reflexão da vivência realizada, marca estas primeiras intervenções de terapeuta e crianças. Ainda neste primeiro excerto da conversa, importa realçar o peso dado na pergunta inicial a um sentimento muito básico e de  acessível resposta pelas crianças (na sua generalidade) – o gosto ou o “desgosto” pelo jogo – formando-se assim o primeiro tópico de discussão. Nesta dinâmica nota-se a inviolável posição própria de cada um dos elementos, sendo a necessidade de respeito e espaço próprio de conversação defendido pelo terapeuta. Todas as opiniões são válidas, mesmo as que vão contra as formulações prévias do terapeuta. Continuando…

Terapeuta – Então houve meninos que acharam o jogo divertido, e outros que não o acharam assim tão divertido, mas falaram todos de coisas difíceis que tinham de ser feitas no jogo. Quais eram as coisas difíceis que este jogo tinha?

Criança 2 – Era estar sempre a tocar no bloco

Criança 3 – E a desviar das “armadilhas” (obstáculos)

Terapeuta – Mas as armadilhas não eram assim tantas e o bloco até era grande mas leve. Porque era difícil?

Criança 3 – Porque tínhamos que tocar todos e quando um não tocava perdíamos.

Segundos pontos: O terapeuta inicia este segundo momento da conversa com uma acção essencial de enquadramento e reformulação do que foi dito anteriormente. Valorizando as anteriores opiniões de todas as crianças, o terapeuta conduz a conversa para a dificuldade do jogo – uma espécie de plataforma intermédia ao que é o objectivo final – a conversa sobre o trabalho em grupo. O terapeuta não perde os seus objectivos, mas dá qualidade e consideração a todas as intervenções da criança. Quando concretiza aspectos concretos da tarefa, tentando aprofundar as dificuldades sentidas pelas crianças, aproxima o plano verbal, das experiências corporais sentidas pela criança, o que faz com que a mesma “se pense e reformule” em acção – esta reflexão surge com a utilização de uma pergunta flutuante, não dirigida nem fechada, podendo ser respondida por qualquer elemento do grupo.

Terapeuta – Então era difícil estarem todos a tocar, que estratégias usaram para que tocassem todos?

Criança 1 – Íamos mais devagar, esperávamos pelos outros.

Criança 3 – Mas as vezes como tínhamos que subir a “armadilha”, tínhamos que esticar os braços. Era um bocadinho difícil.

Terapeuta – Todos sentiram estas dificuldades?

Criança 1,2,3 – (Crianças acenam, umas com maior vigor, outras perdendo-se um pouco na conversa)

Terapeuta – Seria mais fácil cada um levar um bloco? Ou era mais difícil?

Criança 3 – Era mais fácil que assim ia mais rápido (apoiado pelas outras duas crianças).

Terapeuta – Realmente trabalhar em grupo não é fácil, às vezes parece mesmo que é mais fácil trabalhar sozinho. Mas o que é que era melhor quando estavam em grupo?

Criança 1 – Podíamos levar um bloco maior

Criança 2 – E assim podíamos, falar e isso…metia mais graça.

Terapeuta – Eu estava a ver-vos de fora a fazer o jogo, e acho que no inicio foi muito difícil trabalharem em equipa, mas depois de algumas tentativas conseguiram funcionar em grupo e terminar a tarefa. O que mudou, foi como vocês disseram, as estratégias que utilizaram – conversaram mais e foram um bocadinho mais lentos para estarem todos dentro da velocidade do jogo.

Últimos pontos: Ao aproveitar a palavra “todos” dita pela criança, o terapeuta foca as dificuldades num plano de grupo e não individualizado (o que nem sempre tem que ocorrer). Ao focar as perguntas no grupo como um todo, há também o movimento de reflexão giratória, em que o grupo reflecte sobre a mesma questão, sendo que a questão nasce, realmente, do funcionamento do próprio grupo. Uma análise de grupo ao manobrar em equipa. Nas duas intervenções finais, o terapeuta é mais incisivo nos objectivos de reflexão, focando-se nas vantagens e desvantagens de trabalhar em grupo e, finalmente, tomando uma posição com a descrição, sobre o seu ponto de vista, do funcionamento do grupo. A criança vê numa “realidade exterior” pelos olhos de outrem significativo, uma experiência que relata ter vivido.

Posfácioporque se nenhuma história tem fim, a sua ilusão de final é a confirmação da continuidade – A reflexão final, conversada, ou expressa noutros canais é meio e fim de uma intervenção psicomotora. O corpo é um elemento multisensorial, simbólico no diálogo com o outro e na concretização significada dos seus sinais. A reflexão é a “pincelada” final num quadro de vivência corporal, é a “piéce de resistance” que encerra e enquadra a experiência, dando-lhe partilha e identificação.

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão, lembrando que outras profissões passam por semelhante situação. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

2 comments on “Duas caras na mesma expressão

  1. Cláudia Saraiva
    30 de Novembro de 2010

    Boa reflexão… Gosto

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This entry was posted on 16 de Novembro de 2010 by in Uncategorized.

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