Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Dos gregos, quero saber o que é português.

“O corpo não pode ser entendido como um instrumento singelo que serve para transportar o pensamento” J. Costa

Campeão de tiro ao alvo, ali há uma coordenação óculo-manual, perseguidor corredor de autocarros…que motricidade global! Balconista de salão português de chá (taberna para os nativos), não há dúvida, tem equilíbrio na sustentação leve das bandejas, prisioneiros de fraque e gravata condenados à vil cadeira rotativa de um qualquer escritório…parece difícil, mas há psicomotricidade aqui escondida. As anteriores afirmações não pecam tanto por descabimento, como por serem subjectivamente julgadas como óbvias – a psicomotricidade é dimensão que por mais visível que seja, aparece inesperadamente desconhecida aos “olhos” de muitos, “uma estranha a morar em todos”, ao menos enquanto houver uma cabeça que se pensa num corpo e um corpo projectado num novelo neuronal guardado na estrutura craniana.

Com um misto desconfortável de espanto e preocupação, observa-se o olhar céptico com que se toma a psicomotricidade como algo de quase “paranormal”, algo que é extra indivíduo, criado nas percepções conceptuais de “uns quantos”, para responder a questões colocadas por todos, sobre o que estes todos vêem, dando mais ou menos importância ao que é visto – o espaço corpóreo e as suas relações íntimas com o psicológico que somos. Esta, como outras dimensões tão nossas, sofre a discriminação ideológica marcada, quando apenas é tida em conta quando é assinalada por algum tipo de dificuldade ou particularidade a ela ligada. A “normalidade” (no seu carácter teorizável) é banalizada, na corrente casualidade dos “frames” que vemos e não reflectimos nem conhecemos. De tanto pensar “fora da caixa”, nem se sabe bem o que está cá dentro. A reivindicativa procura de conhecimento e compreensão melhorada do que “não é normal” surge, muitas vezes, como uma corrida ao contrário, em que o começo é o fim. Existem experiências recorrentes de como a sistematização e o saber de um padrão, nos permite identificar e melhor compreender as diferenças, esta não é uma dessas, pela sua invulgaridade, no entanto, vale a ponderação – ensaiem olhar um texto redigido em português com uma palavra em grego… esta será das primeiras palavras a ser detectada – não porque se percebe mais ou menos de grego, mas porque o português é o que melhor conhecemos. Pode dizer-se que há conhecimentos que são “alimentados” pelo hábito (como o da língua), mas nunca pela vulgaridade ou reduzida atenção sobre os mesmos, daí ser importante para conhecer a particularidade, investir no que não é raridade.

Na área da psicomotricidade, é necessário um olhar para o que é o padrão psicomotor de desenvolvimento (“mar” de singularidades e diversidade), para a infância, a adolescência e a idade adulta. Sabe-se com relativa sapiência que, na “generalidade da diferença” alguém com autismo é tipicamente descoordenado, que as hemiparesias limitam motoricamente parte do corpo, que uma tonicidade de perfil desarmónico afecta o equilíbrio…fica recorrentementena ignorância, que uma criança começa a andar por volta dos 12 meses, que é normal que mesmo depois de começar a andar, a criança volte a gatinhar, que a adolescência é um “sofá espinhoso” para um jovem “mal sentado” e que com tudo a mudar, o corpo não é excepção. Há um esforço imenso e louvável por conhecer o que é “desviante”, quando é na “normalidade” que estão a maior parte das respostas – porque não nos interessa conhecer “grego” se nem conseguimos falar bem o “português”, metaforicamente apregoando.

 

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão, lembrando que outras profissões passam por semelhante situação. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

4 comments on “Dos gregos, quero saber o que é português.

  1. sandrine ribeiro
    23 de Novembro de 2010

    Adorei. Tenho que dizer que foi o post que mais gostei neste blog! Parabéns! Keep going *

  2. Andreia Silva
    1 de Dezembro de 2010

    «observa-se o olhar céptico com que se toma a psicomotricidade como algo de quase “paranormal”, algo que é extra indivíduo, criado nas percepções conceptuais de “uns quantos”, para responder a questões colocadas por todos, sobre o que estes todos vêem, dando mais ou menos importância ao que é visto – o espaço corpóreo e as suas relações íntimas com o psicológico que somos.»

    Ao ler este excerto senti q alguém conseguiu pôr em palavras algo q há muito sentia e não sabia explicar. Está espectacular! Uma percepção tão óbvia e tão incompreendida que está exposta ao olha de todos os q realmente pretenderem ver.

    Pegando nessa mesma comparação da Psicomotricidade como algo misterioso, e procurando reflectir sobre a questão levantada do porquê do interesse em trabalhar sempre o “não-normal”, penso q é algo q quase que está intrinseco ao ser humano. O mistério, o desconhecido.. sempre foram áreas de interesse nos mais diversos campos de estudo. Parece quase extasiante trabalhar com esses “não-sei-quês” aos qual procuramos dar inúmeras explicações.

    Talvez, dado esse interesse no desconhecido, fosse desafiante pensar: “Será o «normal» conhecido?”

    • lusfernandes
      28 de Dezembro de 2010

      Pois a concepção de normalidade é muito frágil, porque ninguém a consegue definir. Penso que se confunde normalidade com usualidade o que pode levar a dois erros grandes – atenção extrema para desvios saudáveis na conduta (a marca pessoal da pessoa) ou a ignorar desvios que não saem da usualidade dos comportamentos mas que escondem limitações profundas na pessoa que está perante nós.Obrigado pelo comentário

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This entry was posted on 23 de Novembro de 2010 by in Uncategorized.

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