Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Lá se foi a caixa de Pandora…Entre o orgânico e psicológico

“Nós, homens do conhecimento, não nos conhecemos; de nós mesmos somos desconhecidos” F. Nietzsche

A história de Pandora e da eterna e detestável “caixa de todos os males” parece contada, tal como outras rábulas mitológicas, para ilustrar um conjunto de comportamentos humanos que ora por perpétuos movimentos sócio-culturais ou por fortes condicionantes biológicos, ainda hoje teimam em persistir. Quando Epitemeu dá a Pandora a caixa para guardar, levando-a a prometer que nunca deixaria a curiosidade vencer o medo e o respeito pelo cônjuge, o grego foi ingénuo ao não imaginar a força que a procura do saber tem. Mas em tempos idos esta busca não era bem vista, muito menos recompensada (execuções públicas, extradições, infâmia que levava a tortura, por ai…), os males da caixa saíram cá para fora e atormentaram a humanidade. Lá se foi a caixa de Pandora…e ainda bem, hoje o saber, sobretudo inovador também “assusta”, mas não desperta “males” à escala mundial, incita a uma ainda maior curiosidade, prazer e vontade de ir mais longe porque desconhecer mais é conhecer melhor.

Neste capítulo, a evolução da clivagem entre o que é orgânico e psicológico para uma sobreposição funcional destes dois conceitos tão latos como basilares na compreensão do comportamento humano, tem sido vertiginosa e profícua nos mais diversos campos. O saber não tem ficado “enterrado” em livros, encontra sim, “vida” e aplicação nos mais diversificados contextos.

O primado do orgânico sobre o psicológico é histórico – o que se vê ou se consegue provar (cada vez mais com o avanço tecnológico) com uma ligação casuística objectivamente concretizável, acontecendo em padrões de menor restrição na sua variação acaba por ser tido em consideração de forma bem mais vantajosa do que o psicológico que por sua vez, apresenta uma maior variação no seu padrão de resposta, expressa em comportamentos como face visível mas indirecta dos seus processos. O psicológico surge na história humana como uma resposta àquilo que não se via, não era explicado organicamente, mas que algumas mentes fundadoras da psicologia intuíram existir – o processo sobre os processos – um substrato chamado mente. O orgânico seria uma “pai irresponsável” do psicológico, pois nada sabia dele, nem com ele tinha relação.

Os avanços actuais nas mais diversas áreas de investigação e, sobretudo, nas mentalidades dos investigadores levou a que toda esta concepção fosse alterada, “abanando” pressupostos que eram tidos como dogmáticos. Um maior conhecimento, trouxe uma “avalanche” de desconhecido. Tal como um filho pródigo, Agora, percebe-se que os processos psicológicos são também orgânicos, que o comportamento, a emoção, o pensamento sobre o pensamento nasce de um sistema neural orgânico, biológico na sua essência e construção. A explicação da homeostase de todos estes processos está ainda bastante incompleta e promete continuar a ser assim adjectivada. Como no ditado dos pássaros “mais vale um na mãe que dois a voar” e é um facto que estas evoluções têm sido “verdadeiros pássaros na mão” pois têm permitido avanços consideráveis, com melhorias a nível da compreensão moral e filosófica do comportamento humano, da concepção de novos fármacos, das intervenções cada vez mais integradoras e com novos pressupostos…

Neste último ponto, resta agradecer ao “saber”, pela forma como justifica a profissão do psicomotricista, como cada vez mais, a tem fundamentado, como uma intervenção que nasce da ligação e integração e vai, por essa mesma razão, encontrar-se com as novas concepções do psiquismo humano. Os psicomotricistas partem em divida com o conhecimento, com a promessa subjectivamente marcada de também poderem contribuir para que o mesmo se edifique e torne palpável nas suas práticas.

.Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão, lembrando que outras profissões passam por semelhante situação. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

2 comments on “Lá se foi a caixa de Pandora…Entre o orgânico e psicológico

  1. Ana Catarina Carmo Marques
    11 de Dezembro de 2010

    Boa tarde

    Gostaria de informar que no blog http://aquivivesepsicomotricidade.blogspot.com/ a sua página é referenciada nos links.

    Obrigada por partilhar e por viver a psicomotricidade!

    • lusfernandes
      28 de Dezembro de 2010

      Obrigada por esta referência. É importante para a profissão um sentido grande de partilha e comunidade.

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This entry was posted on 7 de Dezembro de 2010 by in Uncategorized.

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