Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Há festa no interior…

“Festa como vivência colectiva de uma ideia” J. Santos

(Numa resposta óbvia à altura festiva)

São os ornamentos angelicais que docemente pulsam as ruas, as suas luzes, os trajes adequados, as músicas, por vezes, insistentemente características (especialmente nos supermercados), as tradições ou inovações, os Pais Natais mecanizados que falam e até coçam costas, os fatos de Carnaval do mais absurdo da originalidade, os ovos do coitado do coelho que, na boa da verdade, nem ovos põe. As festas não são isto – estes são efeitos colaterais, uns mais agradáveis que outros. Como dizia João dos Santos, a festa é a vivência colectiva de uma ideia – vamos então “festejar” e idealizar sobre a importância da mesma nos processos terapêuticos.

A definição de festa é tão subjectiva como a agitação que a mesma costuma carregar. No habitual, corresponde a um momento de excitação grupal/colectiva exacerbado e significante pelos objectivos e meios da mesma. Para serem “boas” festas, estas requerem organização. A organização de uma festa é um movimento de intensa racionalização e estruturação de tempo/espaço, seriação, ordenação, antecipação e adaptação – tudo competências apelidadas de “nobres” na sociologia cerebral. Se o exercício destas competências é por si só “bom sinal” para o desenvolvimento intelectual, torná-las estruturadas, orientadas, potenciadas e mediatizadas é pura terapia “vestida” de animação e simbolismo. Seja no trabalho com grupos de crianças ou indivíduos de idades mais avançadas, a ideação de uma festa, o seu planear e o clímax da sua execução são momentos de grande peso terapêutico pois além de funcionarem como “palco” do trabalho sobre inúmeras competências (algumas acima mencionadas), marcam momentos de grande felicidade e realização pessoal, assim como, “tatuagens” de uma vivência rendida ao subjectivo dos sentimentos pessoais, entrelaçados na rede que são os encontros e desencontros dependentes do objectivo final – “que corra tudo bem”. Uma festa quando sentida como contribuição pessoal para uma criação colectiva deixa no mais íntimo marcas intensas, que em recantos mais escondidos e esmagados que estejam por outras vivências, não deixam esquecer aquela canção de Natal, o papel no teatro de Carnaval ou os segredos das castanhas de São Martinho – são janelas de pertença e “víveres de normalidade”.

Para que a festa seja uma celebração, há que desvalorizar os efeitos especiais, se há fogo-de-artifício, espumante, lantejoulas ou confetis…porque tudo isso pouco interessa quando a festa não joga o que somos. Verdadeiras festas são aquelas em que os palcos celebrados constroem casa no âmago daqueles que os pisam.

 

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão, lembrando que outras profissões passam por semelhante situação. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

2 comments on “Há festa no interior…

  1. Francisco Lontro
    27 de Dezembro de 2010

    Celebramos numa “festa” a pertença a um determinado grupo, a identificação a uma determinada ideia, a ligação a uma pessoa. E a festa é tão mais efusiva, quanto mais esse sentimento de pertença for nutrido. De facto, esses nutrientes nada (ou pouco) têm a ver com os adornos que criamos: uma festa numa sala vazia de objectos pode valer tanto ou mais do que uma festa com os mais fantásticos insufláveis e videojogos, com as mais eloquentes peças de teatro e cenários, com a mais fantástica banda sonora e “efeitos especiais”. A festa alimenta-se de ligações afectivas, com vivências emocionalmente fortes e “descomprometidas”. A festa alimenta-se de risos, sorrisos, disparates e lágrimas; alimenta-se da autenticidade de quem quer celebrar.

    • lusfernandes
      28 de Dezembro de 2010

      Eu não definiria melhor a “festa” de que eu falava – a verdadeira “festa interior”. Obrigado Francisco por este excelente contributo.

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This entry was posted on 14 de Dezembro de 2010 by in Uncategorized.

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