Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Post-(H)its!

“Frases! Frases! Como se o conforto de todos, diante de um facto que não se explica, diante de um mal que nos consome, não fosse encontrar uma palavra que não diz nada e na qual nos tranquilizamos!” L. Pirandello

Numa retrospectiva com cheirinho a nostalgia e a bolo-rei com frutas cristalizadas, recordo pequenos traços das linhas que percorreram o blog no ano de 2010.

Se tudo começa com uma escolha…

“As escolhas são, assim obrigatórias e por serem impreteríveis devem ser bastante ponderadas, com especial importância nas decisões iniciais que podem marcar a possibilidade de uma intervenção e condicionar o modo como se vai desenvolver a relação terapêutica”

O tempo que durará ninguém pode dizer…

“Quero acreditar que a duração não personifica a intensidade das “coisas”, mas sei que há umas que acabam e, outras, que ficam para sempre, mais pela marca que deixam do que pela sua eternidade”

“Diria que havemos de ser eternamente insatisfeitos, na nossa natureza, quando muitas vezes o que queremos, é mais de nós em nós e de nós nos outros”

De muitas formas se tenta…

“Não há forma de chegar à criança indo contra ela”

“é preciso colocar-se com o que é ao dispor do outro”

“Quando a vivência ganha em sprint às conjecturas teóricas e nos deixa desarmados a uma condição muito mais pessoal do que intelectualizada, não há comportamentalismo que nos mostre que causas fizeram os efeitos, desenvolvimentalistas que nos façam perceber o que fazer naquela etapa de vida, psicodinâmica que seja relato interno do que acontece…o contacto directo com a(s) pessoa(s) que está perante nós é nesse momento uma perspectiva, define um modo de actuar, um modo de receber e de dar”

De preferência acompanhados…

“As emoções ainda não nos deixam ser máquinas e por isso, realça-se o papel importante que tem o espaço de grupo em que se possa partilhar conhecimentos técnicos especializados”

Com o reflectir sobre o que fazemos…

“Porque a simples transformação de uma relação com as coisas, num conjunto metódico de pressupostos técnicos só confere credibilidade a quem acredita na rigidez e intransigência das intervenções como caminho para o sucesso”

Analisando tudo o que temos…

“Também a avaliação é uma história”

Numa relação terapêutica, a palavra diz-se muito no que não se ouve”

“A acção (e a reacção?), seja em si problema ou solução é sempre contextual, impressa numa composição que marca as possibilidades”

Sabendo bem até onde podemos ir…

“Vê-se agora um corpo não respeitado, levado a extremos na sua capacidade física, a ficar irremediavelmente marcado com cicatrizes de intervenções de suposta terapia, a permanecer ironicamente adormecido por fármacos messiânicos…”

“Se queremos crescer, se queremos marcar o que podemos fazer, não podemos querer ser tudo, ao invés disso, temos que procurar ser cada vez mais o que somos”

“Quando respeitaremos a criança e lhe daremos o espaço para continuar a ser o que é? Para manter um imaginário com fantasias inimagináveis de como se fazem os bebes, de como o homem foi à lua e de que é feita a baba de camelo (recordo-me deste meu espacinho de desconhecido…). A criança não pode crescer antes do seu tempo e alterar a ordem das coisas é criar barreiras e desbravar os cantos “carinhosamente” desconhecidos/imaginados pelas crianças”

“A terapêutica é um jogo de encontros”

Acreditando fielmente…

“Uma intervenção psicomotora só faz sentido quando se dá um peso cabal ao que é a capacidade de modificação do sujeito”

“Perceber que a realidade que temos e aceitamos somos nós, consideremos isto real ou não…e se há alguma coisa da qual não podemos fugir é deste nós que nos carrega”

“Outras linhas significativas, perpendiculares ou paralelas que choquem com a nossa e nos façam continuar, revestidos de uma capa protectora de recordação a que chamamos de pessoas”

Com quase 4000 mil visualizações, com inúmeros comentários e com uma difusão fantástica para divulgar as reflexões, contínuo a partilhar este projecto como algo que faz sentido na relação estreita entre o que é escrito e o que é lido. Com a premissa inevitável que no próximo ano, as duvidas e a vontade de as partilhar continuarão, peço aos leitores um balanço do que até aqui foi escrito e do sentido que a iniciativa poderá ou não ter para estes.

Um Bom Natal para todos.

“Verdadeiras festas são aquelas em que os palcos celebrados constroem casa no âmago daqueles que os pisam”

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

3 comments on “Post-(H)its!

  1. Marco Loureiro
    21 de Dezembro de 2010

    Olá Luís,

    Foi realmente um óptimo ano, com muitas experiências e vivências. Aprendizagens que vão contruindo o nosso EU e este, por outro lado, actor participante na construção dos vários EUs com quem nos deparamos diáriamente.

    No contínuo que é a vida é, por vezes, difícil manter consciente toda a intencionalidade que a nossa prática, não só como teurapêuta ou educador, mas também como pessoa, deverá estar munida. Deve tornar-se, então, factor intrínseco, não só aprendido e compreendido, mas também vivido.

    É no entanto um percurso. Se por um lado falam em desenvolvimento humano, com grande ênfase na primeira e segunda idade (leia-se desde que nascemos até chgarmos ao final da adolescência e depois a velhice), a verdade é que este desenvolvimento não pára num momento e retoma quando nos reformamos.

    O tempo entre estas duas tão faladas idades, é o tempo, quanto a mim, de grande oportunidades de investimento pessoal, profissional, familar… É o tempo em que mais conscientes estamos da nossa acção enquanto actor principal nesta narrativa que é a vida.

    Para tal, bastam estes pequenos momentos de reflexão. O que interessa tentar saber o futuro se não aprendemos com o passado?!

    Um abraço e votos para um 2011 de grande riqueza.
    Marco Loureiro

  2. RP
    26 de Dezembro de 2010

    Dúvidas em continuar a fazer este trabalho de sucesso?
    Admiro profundamente quem abdica, ou melhor, dedica muito do seu tempo a partilhar a sua formação e, mais do que isso, a partilhar as suas ideias, algo tão intimo e pessoal.
    Os textos são todos muito bem escritos, com um sentido metafórico especialmente interessante e fazem-nos pensar no nosso verdadeiro papel não só enquanto profissionais mas também enquanto cidadãos do mundo.

    Obrigado por cada uma das suas palavras.

    • lusfernandes
      28 de Dezembro de 2010

      Agradeço as palavras do Marco Loureiro e da Alexandra Pragosa que, sem dúvida incitam a continuação deste trabalho de partilha e reflexão conjunta.

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This entry was posted on 21 de Dezembro de 2010 by in Uncategorized.

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