Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Carta para o “Pai do Ano Novo”

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.” F. Pessoa

Meu Querido Pai Natal, sei que com a idade o teu estado anafado e acabado vai-se acentuando, contrastando com a pose e posses com que nos presenteias a cada época natalícia. Os pedidos que te faço vêm fora de horas, mas antes que o IVA nos invada com a força de uma imerecida mas patriótica brisa política, queria fazer umas “pequenas grandes” requisições.

As solicitações são um misto de sensibilidade “Miss Universo”, daquela típica de sentimentos globalizados na criação de condições que, no fundo, nos ofereçam a todos uma vida melhor, misturando-se estas desejadas prendas universais, com alguns aspectos profissionais que, dava as minhas 12 passas, para que fossem aprimorados. Sem a beleza óbvia de uma miss universo (não sei se para gaúdio ou desgosto meu), começo por pedir uma humilde e, acima de tudo, aliciante “vida além crise”. A autorização de sentir em mim e nos outros que esforços não são infrutíferos, que a situação não tem que ir de mal a pior e que o investimento a longo-prazo procura alimentar a construção de um projecto de vida que pode valer o esforço da sua realização. O pedido não é fácil, mas pensei que para quem viaja num trenó pelo mundo inteiro, carregado por 8 renas, isto é capaz de ser “canja”.

De qualquer das formas, se a tua magnificência não chegar a este nível, quero para mim e para todos os psicomotricistas um PDA. Não tomes isto como um pedido materialista, porque este PDA que desejo está longe, muito longe, do assistente pessoal digital que se propaga com maior rapidez no globo que o próprio Wikileaks.

O que gostava mesmo de ter neste novo ano, era uma psicomotricidade Percebida, Disponível e Acessível. Uma dimensão humana e, principalmente, uma prática em que tanto e tantos investem merece entendimento – ser compreendida na sua importância, na sua exclusividade e na sua especificidade de intervenção. A intervenção psicomotora como resposta directa a dificuldades sentidas pelo individuo no contacto com o corpo próprio, com o que o rodeia nas suas dimensões temporais e espaciais, com os outros – uma resposta sentida como capaz e vista com uma naturalidade que, tantas vezes, é diminuta no olhar de técnicos e comunidade cientifica. Também esta intervenção existe com o propósito de estar disponível, ou seja, poder ser encontrada por quem a procura e dela carece – há a necessidade de difundir a prática, não no sentido de espalhar uma mensagem de confiança no que é feito, mas de fazer chegar as competências do psicomotricista às necessidades da sua população-alvo. Por fim, uma psicomotricidade acessível, que faça parte das responsabilidades públicas de uma sociedade que se preocupa com os seus cidadãos e que lhes assegure os cuidados básicos de saúde – saltar a barreira da exclusiva privatização, ou a ideia tão errada, de que a psicomotricidade é uma terapia de luxo ou para “pessoas luxuosas”.

O final desta carta vai com a promessa pessoal de que continuarei a mostrar o meu empenho reflexivo e de partilha, em conjunto com uma limpeza completa da chaminé, para evitares alergias com o cotão e outros microrganismos pouco agradáveis ao tracto nasal.

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

3 comments on “Carta para o “Pai do Ano Novo”

  1. dolores
    28 de Dezembro de 2010

    A ideia de Pai do Ano Novo é muito boa. Também me agradou a tua ideia do PDA para a psicomotricidade e é um pedido que subscrevo e que me junto a ti e a quem mais quiser para trabalhar nesse sentido. Precisamos desta tua vontade de “picar” o nosso comodismo e até pessimismo para o transformarmos em movimento positivo de boas práticas e de “marketing” da nossa área de intervenção.

    Bom ano

    • lusfernandes
      28 de Dezembro de 2010

      O Pai do Ano Novo é mesmo para evitar que nem todos fiquem agradados com as prendas que receberam. Assim o próprio Pai Natal faria umas horas extra. Obrigado pelas palavras Dolores, até porque sei, que se há pessoas defensoras de boas práticas e alguém com uma atitude de importante defesa da psicomotricidade, tu és uma delas. Um bom ano para ti

  2. Ana Campos
    28 de Dezembro de 2010

    Olá Luís!
    Tal como, também espero e desejo que o ano 2011 seja um bom ano para a Psicomotricidade! Que seja acima de tudo percebida e reconhecida a sua importância no seio da sociedade pública e de quem a governa e que nós psicomotricistas sejamos finalmente valorizados!!

    Já agora um óptimo 2011, cheio de boas surpresas😉

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This entry was posted on 28 de Dezembro de 2010 by in Uncategorized.

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