Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Aqui no mar.

“Só se vê bem com o coração” A. Saint-Exupéry

A vida debaixo da camada de ozono, ou o que resta desta capa que nos protege, tem muitos laços e abraços com o fundo do mar e a sua agitada metrópole marítima. Se as “correntes” que nos levam definem muito do nosso rumo, encontramos na animação aquática metáforas interessantes com o que somos e com a forma como nos relacionamos com os outros. A este nível, nem sempre o pescador apanha sereias (talvez por não existirem, digo eu…), sendo que o mais provável é pescar umas quantas botas e latas de atum como perpétua a indústria cinematográfica e televisiva.

No campo terapêutico, há uma metáfora ilustrativa ligada ao mar que marca de forma decisiva uma perspectiva sobre o comportamento humano, a sua génese, o seu motor, as suas razões. O “Iceberg” sempre nos disse que o que está “à vista” é uma mínima parte do que o sujeito é, ficando os seus “segredos” psíquicos guardados nas profundezas estruturais desta pedra de gelo. A clareza e a qualidade simbólica com que esta metáfora espelha a dinâmica do self exteriorizado com o self interiorizado, sempre fascinou – alguém traduziu em imagens de todos algo que é subjectivamente sentido, mas comum na sua essência.

Há dias, quando observava um conjunto de crianças com problemas graves de comportamento enquanto brincavam, não consegui aplicar-lhes este “carácter gelado” e estático – havia grupos que se aglomeravam, conflitos que se criavam, ideias novas ou repetição das mesmas, brinquedos voadores, pragmáticas múltiplas, agitação em todos os sentidos – muito do que são os intervenientes é posto em jogo, numa dinâmica viva de aproximações e afastamento. O “Iceberg” não encaixava nesta leitura – à minha frente estavam tubarões. Os comportamentos que mostravam eram as barbatanas agitadas e visíveis do seu movimento invisível interior, da sua construção/natação debaixo do mar. Estes tubarões, tal como os reais, nem sempre são perigosos, nem sempre lutam e disputam um espaço, não merecem a imagem negativa que se tem deles – o mar faz o marinheiro e nadar (viver) em mares agitados, também faz de nós o que somos.

Ali naquele momento, sentado à beira-mar, já na areia molhada, olhava a tona daquele mar, com esta nova ideia transfigurada numa sensação corajosa e empenhada em despoluir as leituras superficiais, entrar a fundo na relação com os clientes/pacientes, num processo terapêutico justo e transparente para as duas partes. O óbvio neste campo é perigoso, por vezes, promiscuamente preconceituoso, tornar o olhar “Elementar meu caro, Watson”, leva a leitura erradas e demasiado impulsivas das realidades observadas. Deixemos o Sherlock que inatamente somos, porque mergulhar fundo é saber respirar em terrenos não nossos.

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

 

2 comments on “Aqui no mar.

  1. Francisco Lontro
    11 de Janeiro de 2011

    Boa tarde,

    Desta vez não gostei nada do que aqui se falou. Esta ideia de que o terapeuta (ou o Ser Humano – não percebi bem) é um Sherlock/ investigador e de que os “clientes” são “icebergs” arrepia-me! A meu ver a concepção está errada nas duas afirmações: por um lado não há “segredos” que estejam escondidos – a desorganizar “self”s – mas há estruturas psíquicas que se se vão moldando e acomodando e que representam cada um de nós (para o “bem” e para o “mal” – seja lá isso o que for); depois muito menos me parece que devamos ser – terapeutas ou Seres Humanos – inspectores e investigadores com os nossos clientes: no recreio que descreveu, a postura dos “tubarões” que observou foi certamente aquela necessária para aquele contexto – os miúdos adaptaram o seu comportamento ao que estava a acontecer, ou seja àquele pedaço “mar”; o mesmo acontece num setting terapêutico – mas aqui parece-me ainda mais importante reforçar a ideia de que com crianças/ jovens, temos que – enquanto terapeutas – esperar que eles venham até nós, que mostrem as “barbatanas agitadas” e quaisquer outras respostas comportamentais que resultam da relação que se cria. Quero com isto dizer que antes de começarmos a “investigar” à que: 1) mostrar que estamos disponíveis; 2) “pedir licença” para entrar no mundo do cliente; 3) pensar com ele o seu mundo.
    Eu não gostaria de ter um Sherlock “à perna”… e vocês?

  2. Luís
    11 de Janeiro de 2011

    Boa Tarde Francisco. Obrigado pelo comentário! Apesar de ter dito que não apreciou o que se escreveu acho que o que está escrito tem tudo a ver com o que sugeriu, com todo o sentido na minha opinião. Quando refiro que “O óbvio neste campo é perigoso, por vezes, promiscuamente preconceituoso, tornar o olhar “Elementar meu caro, Watson”, leva a leitura erradas e demasiado impulsivas das realidades observadas. Deixemos o Sherlock que inatamente somos, porque mergulhar fundo é saber respirar em terrenos não nossos.”, é exactamente com a intenção de não sermos investigadores de nada, primeiro porque não é nosso direito ético e deontológico e depois porque o processo terapêutico, como o Francisco referiu e como já o tinha feito em outras reflexões é, só faz sentido nas vivências conjuntas e nunca nas conjecturas formadas. A metáfora do ICEBERG é muito conhecida no âmbito da psicologia e da dualidade sintoma/causa – não é de todo uma ideia formulada por mim. Também penso ser uma metáfora bastante rígida e injusta para os “clientes” que encontramos no caminho. Os miúdos que falo com problemas de comportamento graves, podem assim ser classificados porque mantêm um conjunto de comportamentos nos diferentes contextos, porque se assim não fosse, o problema não seria deles mas do contexto em que estavam inseridos. Agora lidar com este tipo de crianças exige, realmente, uma disponibilidade e receptividade para as suas manifestações e “barbatanas” sejam elas “boas ou maus” (seja lá isso o que for), tal como disse e com o qual concordo a 100%. Mas além disso, é preciso que consigamos reflectir sobre as mesmas, pensar em porquês e soluções para as mesmas. E isso ganha grande sentido, quando nos sentamos a observar as suas brincadeiras, relações com objectos, entre eles…é sempre uma mais-valia enorme para a terapia.

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This entry was posted on 4 de Janeiro de 2011 by in Uncategorized.

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