Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

O Barrigão

“O coração de uma mãe é a sala de aula do seu filho.” H.W.Beecher

“Vamos ser pais!”

Com a cabecinha encostada à barriga dela, num laivo de ternura e num instante único de comunicação, o pai diz que sabe, sabe que mesmo estando a vida nesta confusão, o que mais querem, é que o bebé nasça são.

Já quando nasce, as mãos e braços são o embrulho do coração, os enleios e festas dão vida à expressão de sentimentos novos, de manifestação genuína de ser pai/mãe.

Neste micro-mundo, as primeiras descobertas assistidas, a razão de haver os porquês traduzida na existência de quem lhes dê resposta. Os olhares cúmplices nas palavras trocadas, impregnadas de compreensão e prazer.

O orgulho e a realização alimentada pela mágica concretização do crescimento e edificação “do alguém” – produto mais do que artístico, da entrega incondicional, das peripécias e desafios passados nas viagens e caminhos da parentalidade. Uma história de ser para o outro e chamar felicidade a isso.

O tricotar de redes emocionais e neuronais, o nascimento precursor da memória, atenção, simbolização, mapeação, organização, tudo conectado com a capacidade de se sentir pertence a alguém e desta pertença ser gratificante e estimulante – um conjunto delicadamente arrumado e ornamentado que a ciência se espanta de observar, numa inconsciente repetição de deslumbramento, nas respostas que se vão encontrando sobre o intricado desenvolvimento humano.

“E se assim não o é…”

Nem sempre a barriga é tão grande assim, nem sempre lá cabe a voz errante do outro, os brinquedos por mais coloridos que sejam não divertem, não têm cor de pele, nem nada do que esta envolve. Tantas vezes o calor dos braços que seguram é frigorífico e as descobertas do mundo, por pouco guiadas, são folhas de um caderno sem argolas, poeirento e a dar voltas no fundo de uma mala gigante a que chamamos infância.

A prática profissional tem tido o valor de ajudar a perceber a importância das relações primárias no desenvolvimento humano. Quantas vezes, sem este “barrigão” de mãe e pai, observamos problemas diversificados nas crianças que nos chegam – dificuldades múltiplas no estabelecimento de relações, aquisição de conceitos, baixa auto-conceito, entre outras características tão várias como preocupantes. Casas cheias de pessoas desabitadas não chegam para estimular e concretizar as potencialidades que filogeneticamente possuímos.

Como terapeutas, há uma responsabilidade acrescida de viajar no tempo e levar estas crianças a viver o que não foi vivido, a reconstruir-se, a remodelarem-se, conjuntamente com um terapeuta que (usualmente nestes casos) surge projectado como a figura masculina/feminina lacunar em tempos idos. Um terapeuta pronto a aceitar uma proximidade relacional que o envolve num processo de recuos e avanços, na tentativa de criar pontes entre a exigência de vida da criança e o que esta consegue dar.

Não há como querer colocar chapéus em cabeça nenhuma – letras e números são impostos para quem precisa mais (ou em primeiro lugar) de colo e afagos.

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

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This entry was posted on 11 de Janeiro de 2011 by in Uncategorized.

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