Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

1+1=3?

“Um dos direitos de um bébé que vai nascer é ter um pai presente” T.Ferreira

A matemática é tão penosa como mágica. Se por vezes tem o condão de tornar as coisas organizadas e agradavelmente previsíveis, também mostra com acérrimo prazer que pode ser o que quisermos – uma incógnita, mais dependente da perspectiva pessoal, do que dos pergaminhos de objectividade que todos lhe depositamos. Numa discussão mais apurada poderíamos até pensar que os números são de, certa forma, “mais” interpretáveis que as opiniões, pois estas são em si subjectividade, individuais na sua génese e cunho. Só se poderá subjectivar a objectividade?

As mudanças sociais que atravessamos possuem em si algarismos – menor taxa de natalidade, maior quantidade de divórcios, aumento do número de suicídios, por ai…Num sem número de alterações quantificáveis pelos números como “imagem” social exploratória, que sendo útil, explica pouco as dinâmicas que a correspondem. Com o intento de não extravasar esta discussão para outros ramos, foco-me nas alterações no sistema familiar e, principalmente, no papel renovadíssimo que o pai ocupa no mesmo.

O pai. “Personagem” exclusiva da autoridade, das regras, do respeito pela cultura familiar, da imposição da sua vontade no lar. No seu cognome, contém as palavras sábias dos seus rebentos – Pai, o “mais forte”, numa teia de relações tão estilizada como, felizmente, ultrapassada pelas mudanças sociais e culturais, a figura paterna é, hoje em dia, um elemento cada vez mais preponderante e activo no desempenho da sua função parental. A entrada da mulher no mercado de trabalho alíada à saída tardia mas louvável da posição de “mãe da casa” – no que literalmente isso implicava, com um absentismo imposto ou procurado pelo homem do que era toda a organização e “vida interna” da família – aportaram movimentos que levaram a rupturas num modelo demasiado dualizado de transmissão cultural e educativo no seio familiar (mãe-filho), modelo que persistia na generalidade das famílias (salvo as gloriosas excepções). O homem, visto como ser industrializado da força e capacidade é agora exposto ao seu maior desafio – educar o seu filho num processo conjunto com a sua mulher. O esforço conjunto do casal, servirá além dos seus interesses pessoais, o desenvolvimento de um terceiro elemento, espelho que o 1+1, nem sempre dá 2, podendo envolver novos elementos na equação. O homem abraça assim, nos tempos de hoje, uma “pseudo-efeminização” dolorosa, dando a ideia que deve e tem que se aproximar do papel maternal para se tornar elemento integrante nas funções naturais da “bios familiar”. Muitos livros, panfletos, reuniões e iniciativas que tal, esforçam-se para “formar” pais que saibam fazer o que a mãe faz de melhor (e provavelmente sempre fará), ser reproduções da função maternal no seu “know how”, quando se divulga e fomenta em défice a importância extrema da função paternal no desenvolvimento da criança, na sua individuação. Não há, a meu ver, aposta mais premente e necessária que levar os pais a compreender o seu papel diferenciado na educação dos filhos e de como podem tornar a sua masculinidade, enquanto traço personalistíco (e não sexual) um trunfo importante e preponderante nesta tarefa.

 

Na matemática das relações, também há zeros à esquerda, equações difíceis de decifrar, elos fraccionados e primitivas concepções, derivadas de antigos costumes e práticas…cultura enfim, cabe-nos a nós técnicos e educadores ir adicionando novos elementos, ou desafios para os já existentes – não precisamos de ser grandes mestres aritméticos, basta olhar cada encontro como uma nova oportunidade.

 

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

One comment on “1+1=3?

  1. Ana Catarina Fonseca
    8 de Março de 2011

    E como tu terminas

    “não precisamos de ser grandes mestres aritméticos, basta olhar cada encontro como uma nova oportunidade…”

    eu acrescento que devemos, de facto, ter uma «open mind», que nos permita ver de outros ângulos e por outros olhos, o que, à partida, os nossos não percepcionam… e se nos disserem que os números pares são os números entre o 10 e o 99?! Claro! Tem lógica! Não a nossa, mas a lógica do outro ângulo, dos outros olhos…

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This entry was posted on 18 de Janeiro de 2011 by in Uncategorized.

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