Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

O Aniversariante que não entra na Festa.

“A representação do mundo exterior ao corpo apenas pode penetrar no cérebro através do próprio corpo” A.Damásio

Na actualidade, o esforço de simplificação frenética da vida pessoal leva a tomadas curiosas e, não obstante a sua pontual utilidade, muito é desvalorizado e tido como descartável – inventam-se formas de casar sozinho, ir ao ginásio sem sair de casa, pratica-se democracia sem votos, ou melhor, sem a consciência da sua importância. Um movimento de minimização dos esforços e influências, dos outros e dos contextos. Qualquer dia festejaremos um aniversário sem o aniversariante…tal como na escola, se ensina “deixando o Corpo” à porta da sala.

A força de negar, ou fingir não ver a importância das vivências corporais nos processos de aprendizagem começa a ser fraca demais para as evidências científicas e funcionais das descobertas realizadas sobre a forma como o cérebro íntegra e trata as informações do mundo exterior. As impressões de letras, números, formas, cores e organizadores temporais e a sua compreensão, na forma receptiva (leitura da sua significação) e expressiva (transmissão da mesma) começam no corpo e na experiência do mesmo com o meio circundante. Assim, encontramos nos fundamentos das aprendizagens de literacia básicas, algo que é muito anterior a qualquer experiência que se possa ter com as pernas flectidas em 90º graus, costas direitas e glúteos refastelados numa cadeira de escola – tudo isto, numa altura em que a rede neuronal se encontra no pique máximo da expansão das suas potencialidades, sendo que as crianças passam dos cerca de 245 dias de escola, 1715 horas sentados nas cadeiras e 490 horas em actividades de educação física (na melhor das hipóteses). António Damásio, neurocientista português a desenvolver o seu trabalho no sul da Califórnia, refere que na construção do nosso mundo, o corpo é a ferramenta de mapeação e percepção do mesmo, realizando este processo de acordo com as capacidades neuronais que estão desenvolvidas e que o próprio corpo contribui no desenvolvimento, num sistema de retroacção complexo e em grande parte ainda desconhecido. A progressão de capacidades e apetências para os processos de aprendizagem não apresenta uma estrutura linear, mas um vector condutor e estratificante das aquisições, fazendo identificar morfologicamente, fisiologicamente e a nível funcional, estruturas que se desenvolvem, no geral, em primeiro lugar que outras, e sistemas que afinam o seu desempenho através de pré-requisitos conferidos por outros. A nível prático sabe-se que para a aquisição das competências escolares são necessários um conjunto de processos minimamente desenvolvidos e que tornam o indivíduo apto, ou em melhores condições para aprender. Aspectos como a continuidade e noção de integração, preservação na tarefa, as capacidades ligadas aos diferentes tipos de atenção, a noção de ordem, organização, elemento e grupo…tomam papel preponderante na aquisição dos conceitos escolares. O Corpo é o canal principal de todas estas conquistas, desde os processos de diferenciação e identificação pessoal nas linhas de continuidade e descontinuidade da relação com os outros (sistema háptico como o maior órgão somatossensorial do organismo); desde a capacidade de interiorização e reflexão da acção no espaço e tempo, essenciais para a representação da tarefa e feedback avaliativo da mesma (essencial na ordenação e organização do espaço/tempo, entre outras competências); passando pela capacidade de pensar o corpo, nos planos passados (efeitos), presentes (aferências) e antecipados (imagens interiorizadas de pré-activação) – num corpo que alimenta o cérebro de novas paisagens sensoriais e imagéticas.

O sistema escolar insiste então em deixar de fora as vivências corporalmente ricas como experiências coadjuvantes das aprendizagens conceptuais, em encaixar o principal veículo de aprendizagem humana numa prisão sem sentido. A minha intenção é deixar um desafio aliciante a todos os docentes e técnicos envolvidos no projecto, o desafio de deixar o aniversariante entrar na festa, de ver para além das secretárias, de “pensar o corpo para o corpo poder sentir, sentir o corpo para o corpo poder pensar”.

 

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

One comment on “O Aniversariante que não entra na Festa.

  1. afrazao
    7 de Fevereiro de 2011

    Admiro muito aquilo que escreves e a forma revolucionária com que expressas e encadeias os teus pensamentos/conhecimentos.

    Muitos parabéns.

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This entry was posted on 25 de Janeiro de 2011 by in Uncategorized.

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