Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Fingimento. O porquê? (parte 1)

“A história é uma grande loja para a minha fantasia e os sujeitos devem adaptar-se e tornar-se nas minhas mãos o que quero que eles sejam” S. Friedrich

O poeta é um fingidor

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente

Fernando Pessoa disse-o, Pessoa sabia o poder que todas as representações e actos simbólicos, de fingimento, de vivência de realidades várias, têm no sentir e no estar de quem as mete em jogo. E nós, psicomotricistas, sabemos da riqueza e do impacto de um role-playing? De um jogo simbólico de representação? De um teatro?

Numa análise mais concreta à natureza dos processos de representação, ou simbolização, pode dizer-se, de forma simplista, que este processo surge na ausência de algo que se quer mostrar ou identificar. Esta compensação de desejo de presença pode corresponder a diferentes necessidades,  como a do prazer lúdico da experiência, a de uma angústia de perda,  ou mesmo uma resolução de conflitos…enfim, inúmeras razões para representar. Agora, seja qual for o motivo, existe um aspecto comum a todas eles – a representação surge como uma experimentação projectiva de um processo de “homeostasia emocional” – uma dinâmica que visa suster o sujeito num estado de equilíbrio ideal na expressão das suas necessidades mais interiores. Assim, para nós, terapeutas, este processo vivencial de acesso ao simbólico surge como uma óbvia e natural ferramenta de intervenção terapêutica.

Quando se propõe a crianças situações de representação, ou quando estas o propõem os temas mais usuais surgem ligados ou a contos infantis mais conhecidos, ou a situações que as mesmas passam no dia-a-dia (menos frequente). De um momento para o outro entram em jogo, no espaço terapêutico, lobos maus, capuchinhos vermelhos, fadas, casas, castelos e monstros do imaginário, como projecções do interior que conduzem a acção e a tornam exterior, analisável, e observável pelo sujeito da mesma, como algo exterior a ele mesmo. As histórias dramatizadas ou jogadas tendem a uma repetição pedida pelas crianças, até que a associação de ideias livres e os insights vividos nas personagens tenham um significado pessoal que dê “final” à história – poder vivenciar o bem e o mal (e.g. lobo mau e capuchinho), o ser cuidador ou cuidado (e.g. pais e mães) o viver ou estar morto (e.g. guerras), o desaparecer e estar no escuro numa procura de controlar o medo (e.g. escondidas), o construir e destruir na dualidade destruidor e reparador (e.g. os 3 porquinhos) – como experimentações arcaicas das suas pulsões mais primitivas, de contacto com o contexto humano e material, sentindo “na pele” o seu imaginário.

O papel do terapeuta é a de um observador atento, de um mediador das acções colectivas – pode participar ou não na história representada, mas nunca numa função de definição das suas linhas mestras. Estas pulsões, mesmo em situação de dramatização tendem a ser expressas de forma desorganizada e cabe ao terapeuta dar um corpo à história com o material imagético que as crianças trazem para a mesma. A criança precisa saber que no espaço terapêutico existe alguém que vai acolher estas suas manifestações sublimadas nas personagens e o terapeuta, surge como o adulto contentor das vivências. A discussão da história é também um momento importante, porque permite à criança estruturar o vivido e perceber a importância que o adulto e os outros deram à sua existência na história.

O setting terapêutico deve permitir a criação destas atmosferas, deve dar à criança o que ela lhe pede, com segurança e afecto. Nem sempre as histórias têm finais felizes, até porque uma mesma história pode ter significados diferentes para quem a vive, no entanto, perceber que os medos, angustias, desejos e ideias podem ser enfrentadas com outros e por outros dá às histórias uma “uma magia especial”, uma essência terapêutica incontestável. Vamos lá fingir então!

P.S – No seguimento desta reflexão, na próxima semana, será publicada uma segunda parte com relatos reais de situações de representação em contexto terapêutico – a sua leitura, a sua condução e as vivências nelas expressas.

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

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This entry was posted on 15 de Fevereiro de 2011 by in Uncategorized.

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