Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Quem tem medo do lobo mau? (o como) – parte 2

“Creio que não se pode fazer nada de grande na vida se não se fizer representar o personagem que existe dentro de cada um de nós” C. Chaplin

No seguimento da reflexão anterior, com o objectivo de tornar ainda mais claro o que foi dito, apresento 3 relatos de situações práticas em que a representação espontânea e livre, no espaço terapêutico, mostrou-se expressão simbolizada do sentir e pensar das crianças envolvidas.

Quem tem medo do lobo mau?

A história envolvia 4 crianças e o terapeuta. As crianças propõem representar a história do Lobo mau e dos 3 porquinhos. O terapeuta recebe essa proposta e organiza as ideias, auxiliando na construção dos settings para a representação. As crianças definem as personagens, sendo que haveria uma mãe “porquinha”, 3 porquinhos e o lobo mau, personagem entregue ao terapeuta. A representação inicia-se – num processo de reajuste e ideacção contínuo, em que o argumento vai-se tornando real e construindo-se ao mesmo tempo. Perto do que se pensava ser o final da história, surge a expressão mais real das preocupações e inquietações do grupo.

“Agora que matamos o lobo…como acaba a história?”

“Acaba assim…”

“Assim é mau para o lobo…devíamos arranjar uma poção que salvasse o lobo”

“Não, o lobo era o pai dos porquinhos, estava era enfeitiçado…temos que arranjar é o remédio”

O “lobo” volta a vida para ser pai e dar um final feliz à história. Para aquele grupo de crianças, com uma ausência de figura paterna tremenda, esta transformação é muito significativa e contentora da sua organização psíquica, não só porque a pensaram, mas porque a viveram.

Guerra contra nós mesmos

Num grupo de 6 crianças apoiadas por um terapeuta, desenrola-se a maior batalha de todos os tempos. A batalha contra os nossos medos. Tudo começa num filme que passou na televisão, uma guerra violenta entre gregos e troianos. O grupo divide-se em 2, começa a construir as suas muralhas e os seus objectos pessoais de defesa e ataque num trabalho de uma exigência metacognitiva de realce. Depois de definidas as regras básicas de “sobrevivência” por parte do terapeuta, a batalha começa. Há gritos de empenho, desespero e luta, o ginásio parece encarregar de se desarrumar sozinho. No final, havendo ou não vencedores, há um cansaço geral e a necessidade da intervenção do terapeuta para levar o grupo à reflexão.

“Bem isto é que foi uma batalha…haviam bons e maus?” – terapeuta

“Havia, os gregos eram os bons, os troianos os maus…”

“Então e quem ganhou?” – terapeuta

“Ganharam os maus, eram mais poderosos…mas agora queríamos trocar, que eu também quero ser bom”

Crianças com graves problemas de comportamento como as desta situação, alimentam frequentemente este desejo de por momentos não serem os “maus da fita”, de alguma vez poderem fazer de bons. A experimentação de papéis tão distintos neste campo representativo, permite acomodar e responder a esse desejo para que possa ajudar, a uma progressiva integração destes funcionamentos na vida diária.

A casa dos pais

O mote para histórias representadas com crianças mais novas, anda, frequentemente perto, de questões mais imaturas, de pais e mães, da casa como elemento central das narrativas. Assim, num grupo de 6 crianças, surgiu a história da casa dos pais e das mães. Para estas crianças, inicialmente, esta casa não tinha adultos, podia ser muito bem governada por crianças – montou-se camas, mesas, almofadas…a casa ergueu-se dentro de 4 paredes. Após momentos de representação do que é a vida diária – o que permitiu ao terapeuta compreender que rotinas possuem estas crianças, interrompendo esta dinâmica para realizar alguns ajustes nas mesmas – quando simulavam a chegada da noite, uma das crianças lembrou-se de algo importante.

“Quando está noite a casa é escura…”

“Então podíamos apagar a luz!”

“Não, não…não quero brincar assim…”

Virando-se para o terapeuta, uma criança diz:

“Podias ser como os pais, vias os filhos a dormir e se estava tudo bem…”

E assim acontece, há espaço para este momento de segurança relacional e de contacto único entre terapeuta e crianças. Há espaço para existir seguro.

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

 

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This entry was posted on 22 de Fevereiro de 2011 by in Uncategorized.

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