Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

O gozo da dúvida.

“A filosofia é importante porque nos ajuda a pensar melhor sobre problemas de tal forma complexos que a tentação é desistir de tentar resolvê-los” D. Murcho

 

O que é a Filosofia? – Será esta a melhor forma de iniciar a discussão da mesma, vestindo-nos da sua natureza interrogativa. Filosofia não se minimiza no colocar de questões, sapiência das melhores respostas ou conhecer e discutir o que os “antepassados” proferiram sobre assuntos tão intricados no âmbito moral e social que não têm, ou parecem não ter, respostas possíveis. Filosofia é um processo de reflexão aprimorado com a particularidade de não nos dar respostas exactas embora, nos ofereça sempre novas perguntas.

As ferramentas do pensar filosófico não se esgotam em temas que, por vezes, pensamos serem inúteis na sua concepção prática, no nosso dia-a-dia. Será que nos habituamos a questionar o que fazemos? Porque o fazemos? E o que aconteceria se o que fazemos fosse feito de outra forma? São questões que nada têm de fáceis, como não as podemos reconhecer como fúteis. O que nos falta questionar na nossa prática profissional enquanto terapeutas? Será que estamos dispostos a fazê-lo?

Quando é delineada uma intervenção, com a sua estrutura, métodos, objectivos, será que pensamos como esta poderia ser se fosse cogitada de outra forma? Pensamos os prós e contras das nossas acções ou preferimos a rotina confortável daquilo que sabemos que podemos fazer ou pensamos saber que o fazemos bem? Temos por certo saber o que é melhor para a pessoa ou é para nós imperativo que se responda ao que a pessoa clama necessitar? Seguimos uma teoria, duas, “meios-termos” ou os extremos de leitura das situações? Deixamos que os livros nos falem sempre o que devemos fazer ou damos espaço à individualidade do que acreditamos? Estamos envolvidos na relação com a pessoa com entusiasmo de promover mudança ou pensamos – “bolas mais uma sessão”? Será que pensamos nas coisas ou deixamos que elas “aconteçam por nós”? Questionamo-nos ou confiamos ser inquestionáveis?

A Filosofia não se deixa estar distante do que somos, é ancestralmente a sabedoria do ser – Ser psicomotricista, Ser terapeuta, Ser pessoa, no tudo/nada que isso implica. Mentes do pragmatismo podem afirmar que as conjecturas são jogos da passividade e utensílios da inacção, por outras palavras, que “isto é tudo uma treta” que em nada ajuda a função. A mim, prefiro pensar-me, com a inacção que isso me possa dar, embalado no gozo que é saber que não tenho todas as respostas para que possa sempre ter a audácia de fazer novas perguntas.

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

3 comments on “O gozo da dúvida.

  1. afrazao
    2 de Março de 2011

    É verdade… Não é que tenha uma grande experiência de vida mas, pelo que vivencio e observo, a rotina e a exigência para responder a todas as situações do quotidiano deixam pouco tempo para as pessoas pensarem. Questões como “Será que isto vale a pena?”, “Faz algum sentido o que estou a fazer?”.
    No entanto, também acredito que muitas das pessoas não querem pensar. Parece que dá muito trabalho! Quando é muitas vezes as respostas que advém dum prévio questionamento nos fazem sentir de certa forma realizados…

  2. francisco
    10 de Março de 2011

    Dois comentários:

    1 – Uma história que me contaram: A história do elefante do circo (adaptada com o que me lembro dela).
    Era uma vez um elefante bebé que nasceu no circo, filho de pais que levavam a vida ao sabor das dores das vergastadas do treino, da satisfação por meia dúzia de amendoins ao fim dum dia satisfatório de habilidades, e da realização se sentir o aplauso do público sempre que havia espetáculos ao fim-de-semana! Logo após conseguir dar os primeiros passos, Sebastião, o dono do circo, chegou-se perto do pequeno elefante e prendeu-lhe uma pata a uma pequena corrente, que depois segurou ao chão com a ajuda dum pequeno espigão de ferro; tudo dimensionado às pequenas medidas do elefante juvenil. Como é óbvio, sempre que o pequeno elefante tentava afastar-se do lugar onde o seu dono lhe tinha traçado a vida – talvez correr um pouco para sentir o vento na tromba – era como se fosse puxado para trás; era a corrente a mostrar-lhe à força as suas raízes e o seu horizonte e a relembrar-lhe a que continuava a dever reverência ao Sebastião. O pequeno elefante aprendeu a conformar-se aos cinco metros de vida (para todos os lados); eram dez os passos que definiam a sua existência e foi esse o limite que aprendeu a impôr a si próprio. Os anos passaram e o elefante cresceu. O Sebastião, distraído ou sabedor da essência paquiderme, nunca chegou a mudar a corrente e o espigão de ferro; mas o elefante por ali ficou, às voltas com a sua vida. Certa noite, passou por aquele lugar uma raposa forasteira, que ao ouvir os lamúrios do elefante se decidiu acercar. O elefante repetia uma ladainha intrigante, que quase não se conseguia ouvir. A raposa falou-lhe; perguntou-lhe que lamúrias eram aquelas. “Estou aqui preso, não vês!” – disse, apontando para a sua pata acorrentada. A raposa olhou a pequena corrente de ferro na imensidão do corpo abandonado e triste do elefante; abanou a cabeça, e ao afastar-se perguntou em voz alta: “quem foi que te acorrentou o sonho e a imaginação?”.

    2 – Pode doer a simples ideia de se olhar ao espelho:
    – quando não se tem a certeza se se tem estofo para suportar o reflexo
    – quando se tem medo que o reflexo devolva uma imagem que não era a que se tinha de si próprio
    – quando se tem medo que a imagem não seja “suficientemente” por agradar a quem importa e sobretudo a nós próprios
    – quando se perdeu o sonho da Beleza

    • lusfernandes
      10 de Março de 2011

      Obrigado Francisco. Que grande reflexão nos trouxeste neste comentário. Obrigado também por ser um leitor assíduo e acima de tudo, uma das pessoas que mais discute e depõe as ideias, tal como eu ambicionei para o blog.

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This entry was posted on 1 de Março de 2011 by in Uncategorized.

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