Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Mesmo antes dos porquês!

“Alguns pressentem a chuva; outros contentam-se em molhar-se.” H. Miller

A maioria das perguntas que são inteligentemente feitas, carregam em si metade da resposta, expressa no que é dito ou, principalmente, no que é pensado. Mesmo na idade dos porquês, a ingenuidade não trabalha a tempo inteiro, o que se nota quando a pergunta é devolvida ao “pequeno investigador” – há sempre qualquer ideia sobre o assunto, por mais absurda ou pouco desenvolvida que seja.

As ideias que se tem sobre tudo e mais alguma “coisa”, vão prevenindo e moldando a resposta a essas “coisas”, permitem uma leitura das situações e uma resposta pensada anterior à resposta objectivamente dada. Assim, pode dizer-se que a prevenção estará para o funcionamento individual como a caixa de mudanças está para o arranque de um carro, como uma acção antecipatória que nos permite não andar aos “soluços” ou “ir abaixo” na nossa acção.

A prevenção pensada desta forma, independentemente dos seus 3 níveis, levanta um conjunto de questões pertinentes face à intervenção psicomotora e a sua aplicação profissional. Os recentes estudos, que são muito citados, mas pouco levados em conta por quem ministra os acontecimentos, vão factualizando o poder que as novas dinâmicas sociais têm sobre os processos de aprendizagem, mais especificamente, sobre o encurtar do “espaço do corpo” como agente defendido na relação com o que o rodeia. Se noutros tempos, não se sabia de forma tão vincada o poder que o corpo possuía no desenvolvimento humano, existiam, porém, estruturas arquitectónicas mais humanizadas, espaços de maior liberdade e “tempos” menos acelerados para poder correr pelo bairro, saltar por tudo o que tivesse uma altura superior ao joelho e sentir a areia, poeira ou o que quer que fosse que povoava o chão em que as brincadeiras ganhavam vida. Hoje, o corpo é página central dos livros mas não é o índice dos estilos de vida que vamos adoptando, resultado de constrangimentos que fogem ao nosso controlo, mas também, de um sobreinvestimento do corpo como palco competitivo e/ou exibicionista.

As restrições aumentaram, mas as possibilidades vão-se desvanecendo. Nesta altura, não se previne o que será este desinvestimento no corpo – não são pensadas oportunidades para um trabalho sobre a psicomotricidade como dimensão fundamental do desenvolvimento humano. Para quando a intervenção psicomotora preventiva? Para quando concretizar na acção o potencial enorme que esta tem como ferramenta de aprendizagem? O avanço tecnológico vai conseguindo conquistas extraordinárias, espelho do grande potencial humano para criar e inovar, mas que outras capacidades se vão perdendo? O que é preciso fazer para evitar estas perdas? Porque não se colocam os “porquês” antes do que aquilo se questiona acontecer?

A prevenção, tanto no âmbito da intervenção psicomotora como noutros, respeita o “princípio do conhecimento” – sabemos o que pode acontecer se não fizermos alguma cosia, então não podemos ficar sem fazer alguma coisa. Parece óbvio, copiosamente óbvio nalguns casos…obrigatoriamente há que meter as mudanças certas, no tempo certo, senão o soluçar será constante e só se vai combatendo com a remediação, mais dispendiosa e menos proficiente.

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

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This entry was posted on 8 de Março de 2011 by in Uncategorized.

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