Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Arrumações

“As crianças não fazem tudo o que querem, mas querem tudo o que fazem.” E. Cláparede

As Arrumações são um “bicho” complicado, implicam um esforço magnânime e tendem para o caos, são soluções sempre temporárias no ritmo frenético do calendário. Quando arrumamos, agrupamos, classificamos e dispomos um conjunto de “coisas” que nos fazem maior ou menor falta, tornamos estas mais acessíveis, ficamos a saber onde estão. Na verdade, estamos sempre a arrumar qualquer coisa, na nossa casa, ou na nossa cabeça (a casa transportável), as nossas opiniões, juízos, ideias formadas sobre isto e aquilo – etiquetamos o que vivemos, com a linguagem verbal e não verbal.

No ramo da intervenção terapêutica, além das inúmeras etiquetas que colocamos, quer se queria ou não, positivas ou negativas, tendemos a caracterizar a intervenção e o que a fundamenta segundo uma perspectiva metodológica, uma forma de pensar como fazer melhor, com os instrumentos que isso implica. Quando falamos das questões ligadas à atitude do terapeuta e educador, surgem duas grandes gavetas em que tendemos a encaixar as nossas acções – a directividade e a não-directividade. Neste caso, forçamos a entrada dos compartimentos, deixamos tudo atafulhado, e com vontade de arrumar, para nos sossegar o trabalho que dá procurar e questionar o que fazemos/vemos. Surge neste armário veladamente fechado, um mito e contradição que nos habituamos a ter como certo, porque à partida, já está arrumado na nossa “casa”.- A directividade é o contrário da não-directividade.

As arrumações por vezes são assim, pensar que estes dois conceitos são opostos é facilitar o raciocínio, boicotando o direito a que este esteja bem realizado. Se pensarmos num indivíduo X que é conflituoso e num indivíduo Y que não é conflituoso, não podemos afirmar que não são ambos simpáticos, generosos, altruístas ou sacanas. A negação de algo, não o torna oposto, torna o que foi negado ausente, logo, uma não-directividade é uma ausência de directividade, nunca o contrário desta. Este facto, que parece, à partida irrelevante, tem impacto na forma como se compreende e mais do que isso se desenrola as intervenções. A ideia errónea que ser não-directivo é deixar que se faça tudo e tudo se suceda no espaço de sessão é tão errada como o juízo de que ser directivo é ser “general” e controlar as tropas – isso são ideias de senso-comum que em tudo prejudicam a análise e reflexão sobre as práticas interventivas. A procura pelos pontos comuns e pelos efeitos e especificidades de uma atitude em complemento da outra, confere uma riqueza crucial na intervenção, uma capacidade de pôr em causa o que fazemos, desarrumando o ornamentado que temos na arrumação das rotinas e hábitos. A questão da directividade no espaço terapêutico é um contínuo, como uma régua construída à medida do paciente/cliente – não pode ser um conceito fechado e intransigente de estar e ser com quem nos procura – há a obrigatoriedade profissional de um esforço de libertação dos condicionantes do que é “saltarmos” para dentro de um closet que nos deixa marcados e limitados nas nossas possibilidades de acção e leitura da pessoa.

Este será, provavelmente, um argumento para que continuem a esquecer-se de arrumar “as coisas”, a deixaram algumas espalhadas em sítios que conhecem, para que saibam sempre onde elas estão, porque algo só está perdido quando o guardamos num sítio onde não o podemos voltar a encontrar.

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

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This entry was posted on 15 de Março de 2011 by in Uncategorized.

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