Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

A Mercearia e o Hipermercado.

“Mais um ano longe de ser criança? Não me parece ser o mesmo que crescer” R. Bach

“0 de incertezas, 0 de preocupações”, num mundo em que os preços são cada vez mais altos e cantam-se “baixinho”, em que cartões ganham vida própria e em que mascotes, supostamente infantis, como a Popota e a Leopoldina ganham uma roupagem de dirty disco stars semelhante ao show semi-transformista da Lady Gaga – a competição é feroz, e o merceeiro com um avental esbranquiçado e com a mítica “farinha 33” numa das 5 prateleiras que ainda tem os detergentes ao lado das bolachas, fica sem resposta a este ilusionismo maciço de produtividade e glamour.

Há dias, quando reflectia sobre a “indústria do consumo”, cogitava como esta pode ser uma “deliciosa” metáfora às questões ligadas às transições que as crianças atravessam no seu desenvolvimento pessoal e social – especialmente na sua passagem do ensino básico para o 5º ano de escolaridade. Toda a mudança implica um esforço, um deixar o que já se fazia para se fazer o que tem que ser feito e neste aspecto, não podemos pensar que estas transições acontecem naturalmente, sem o devido acompanhamento de elementos de continuidade que carreguem estabilidade nestas exigências pessoais e sociais de ruptura.

Uma criança no ensino básico, faz uma gestão de merceeiro de tudo o que lhe diz respeito. A criança tem um “sócio” próximo que lhe ajuda nas contas e no trabalho (professora), controla as variáveis que o seu conhecimento e desenvolvimento lhe permite, é responsável por um dossier e por 2 ou 3 livros e cumpre um horário relativamente estável de entrada e saída para as aulas – tudo é simples e, mais que isso, tudo tem um ar “mais familiar”. Ao realizar o exercício de imaginação, de colocar um merceeiro a gerir um hipermercado onde trabalham 200 ou mais pessoas e em que os produtos ascendem à categoria dos milhares, o que penso, por insight é num período de reajuste, numa obrigatoriedade de reestruturação das práticas e rotinas, num processo que levará o seu tempo até “afinar”.

Hoje em dia, quando se pensa na passagem de uma criança do ensino básico para o 1º ciclo, fica-se agarrado à ideia de que o crescimento acompanha o desenvolvimento de mão dada e que as crianças estão naturalmente preparadas para esta transição – transição para um meio com 8 ou 9 professores, horários frenéticos, obrigações tão diversificadas como consideravelmente acrescidas – pensa-se pouco no período de adaptação como uma oportunidade única dos agentes educativos poderem estar perto das crianças e ajudarem na organização e optimização do que são estas mudanças. A ajuda costuma vir tarde, após o falhanço, depois de no 1º ou 2º período a experiência de 5º ano das crianças estar marcada pelo insucesso em 4/5 ou mais disciplinas, numa espécie de ajuda ao merceeiro depois de o hipermercado ir à falência. Os pais desesperam, viram-se contra a escola ou contra a criança, porque aos 10 anos isto já não era suposto, porque não é, de todo, o que esperavam para/do seu filho.

Com tantas disciplinas curriculares, para quando uma ligada a esta transição? É que estas coisas de crescer, também se aprendem…

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.


 

 

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This entry was posted on 22 de Março de 2011 by in Uncategorized.

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