Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

O Ovo ou a Galinha?

“Quem nasceu primeiro, o Ovo ou a Galinha?” Anónimo.

No que se refere à discussão pública sobre os avanços da ciência, da sociedade, dos tempos, a verdade ou a sua procura, tem sido progressivamente aprisionada no domínio de alguns autoproclamados donos da credibilidade e, mais que isso, da utilidade. Será o conhecimento técnico/cientifico o único caminho para o avanço? Será o conhecimento não-técnico/empirico a panaceia dos intelectuais? Serão assim tão distantes os dois tipos de conhecimento?

Gaston Bachelard dizia que “pelas suas técnicas prodigiosas, o homem ultrapassa, ao que parece, os contextos do seu próprio pensamento”, como se a técnica fosse aqui uma expressão do que é pensado, uma materialização que se torna maior que a ideia – esta é uma concepção ousada do que é científico colocando a ênfase no que é a reflexão, ao contrário das habituais concepções de técnica como meios para alcançar os fins. Aqui encontramos a primeira divergência com a noção de que o conhecimento técnico e não-técnico são “mundos” distantes, pois têm em si a mesma génesis – o pensar, as ideias. Quando estes conceitos se ligam à ciência e à utilização do método científico, Miguel Unanumo fez questão de ensinar que “a verdadeira ciência ensina sobretudo a duvidar e a ser ignorante”, daí se perceba que seguindo os passos de rigor e organização da hipótese-dedução, a ciência não deixe de se suster nas dúvidas, nas interrogações, afinal nas ideias de espanto sobre o que é e existe.

Com a ajuda destes dois autores, diria que a o conhecimento técnico procura uma fundamentação do raciocínio no mundo, uma projecção das concepções na necessidade de as alargar para um universo maior que o nosso pensar. A ideia que o conhecimento empírico é contrário à ciência, exclui a imperiosa indispensabilidade do conhecimento científico se questionar a si mesmo, e indagar sobre a espantosa clareza com que consegue perceber o mundo. A procura de verdade é um processo criterioso e antes de se suster de provas (estudos), está dependente das ideias e suposições que a segura – porque entender o conhecimento desta forma, implica que toda a verdade é mentira, até ser questionada.

No que diz respeito à psicomotricidade e ao seu campo de estudo, penso que esta clivagem na forma como se entende o conhecimento científico e o empírico tem prejudicado a afirmação e realização de investigação. Ainda que seja uma área de estudos recente, há uma ideia de “impossibilidade de provação” das percepções com que o psicomotricista se depara nas suas vivências profissionais, um preconceito grande de que a reflexão sobre a prática tem sempre muitos obstáculos na sua passagem para o conhecimento científico, como disse acima, como se fossem mundos opostos. A verdade, é que a investigação científica é um processo complicado e exigente, porém o seu “nascimento” está nas hipóteses que colocamos todos os dias na prática profissional, o que nos dá subject mais que suficiente para explorar e arriscar o desafio dessa exploração.

Quem nasceu primeiro, o Ovo ou a Galinha?”, quem veio primeiro, a crise politica ou a demissão do governo? Quem virá primeiro, o FMI ou a emigração em escala? O conhecimento científico ou o conhecimento empírico? Tudo perguntas que ficam por saber, por já responderem ao que é perguntado.

 

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

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This entry was posted on 29 de Março de 2011 by in Uncategorized.

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