Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Psicomotricidade, Terapia ocupacional e o Senhor Válery

"O Senhor Válery era perfeccionista"

Para pensar sobre o que “transportamos”, com que direito e razão o fazemos e, mais que isso, o cuidado a ter com o “transportado”, a melhor forma de iniciar esta publicação é com uma história fabulosa do minúsculo (mas grande…) Senhor Válery, escrito por Gonçalo.M.Tavares. Conta-se assim:

“ O Senhor Válery era perfeccionista.

Só tocava nas coisas que estavam à sua esquerda com a mão esquerda, e nas coisas que estavam à sua direita com a mão direita.

Ele dizia: O Mundo tem 2 lados: o direito e o esquerdo, tal como o corpo; e o erro surge quando alguém toca o lado direito do Mundo com o lado esquerdo do corpo, ou vice-versa. (…) Assim para os objectos do lado direito reservo a minha mão direita, e vice-versa.

Nesse momento, perante uma dúvida colocada por um amigo, o senhor Válery explicou: Aos objectos muito pesados coloco-os exactamente com o seu centro na linha. Assim, posso carregá-los utilizando a mão esquerda e a mão direita, desde que o tenha o cuidado de os transportar com o seu centro exactamente sobre a linha divisória. (…)”

Nesta simplicidade complexa da “mania” do senhor Válery, escondem-se muitas verdades sobre coisas divididas e sobre o seu lugar na nossa forma de as “ver”.

Intervenção psicomotora e Terapia Ocupacional, “mundos” distintos em tantos aspectos, tal como os objectos do lado direito e esquerdo do senhor Válery. Assim como fazia este último, é preciso separar as coisas, saber que a Psicomotricidade é uma dimensão individual do sujeito, pertence-lhe mesmo que ele não se aperceba disso, mesmo que por alguma razão este não aja sobre o mundo que o rodeia, existe uma Psicomotricidade inerente à sua existência; saber também que o termo Ocupação é resultado visível de um conjunto de dimensões (entre elas a psicomotora) individuais e que se apresenta como a realização concreta da actividade e participação do sujeito sobre o mundo que o rodeia. O Saber separar e compreender a especificidade é o primeiro passo para “carregar” as pessoas no lado certo do que precisam e procuram para si – na compreensão da pessoa não há lugares substituíveis, só pontos de vista acumuláveis. Se no âmbito profissional somos tidos por igual, não é por o sermos, mas porque se entende de forma errónea as necessidades de quem procura ajuda terapêutica – porque não se cuida com cuidado (aparte a redundância) os “objectos transportados”. Nisto o senhor Válery, não confundia o Mundo, transportava o que era para ser transportado com o lado certo do corpo – chegou a altura de aprendermos com este senhor minúsculo como “transportar”, as coisas pesadas e grandes, as vidas com que como terapeutas (ocupacionais ou psicomotricistas) nos deparamos, de saber levá-las sobre as linhas divisórias do que são os olhares sobre elas, sabendo guardar o nosso espaço na confiança e consciência do que podemos e sabemos fazer.
Obrigado Senhor Válery.

P.S – Para saber mais deste Senhor – Tavares, G.M (2002). O Senhor Válery. Edições Caminho. Lisboa.

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

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This entry was posted on 5 de Abril de 2011 by in Uncategorized.

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