Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Sete Factores psicomotores: A psicomotricidade (des) mistificada?

“É preciso estar sempre crítico diante daquilo que se vai admirar” A. Silva

Nos últimos tempos, ao reflectir sobre a situação do pais e como as saídas profissionais existem em minoria, independentemente, do maior ou menor esforço que a auto-proclamada “geração à rasca” faça para as conseguir, pensei que há aspectos comuns a todas as profissões, há coisas com as quais todos temos que nos preocupar em manter “vivos” para bem das nossas práticas – o direito à criação com referências. O direito (dever?) de respeitar um quadro de referências que nos enquadra na prática diversificada e individualizada que realizamos da nossa profissão, o marcar a diferença, que outros tantos falam em debates televisivos, onde há mais uma exposição da opinião do que propriamente a discussão sobre as mesmas.

Para qualquer psicomotricista, independentemente da sua formação académica e experiência profissional, o conhecimento dos factores psicomotores parece-me dado adquirido, remetendo as práticas para um sistema de referência que, aparte as suas limitações (cientificas e mesmo ideológicas), nos permite, em princípio, observar e analisar a psicomotricidade do indivíduo. Assim compreendida, temos uma psicomotricidade categorizada em sete factores psicomotores que funcionam de forma integrada e numa escala dinâmica e ascendente de progressão, desde a capacidade de integração do tónus muscular, o sentimento anti-gravitacional de equilíbrio, o conhecimento e noção do corpo, a definição da especialização hemisférica lateralizada, a organização no espaço e no tempo e por fim as acções com os músculos major e as que envolvem principalmente os músculos da mão.

Esta classificação, apesar da sua utilidade para categorização do que é observável e do que são alguns dos principais “campos” de actuação do psicomotricista, percebendo-se a fenomenologia de alguns comportamentos do indivíduo, surge como uma classificação que tem, em alguns casos, uma abusiva utilização e, mais que isso, uma exclusividade de análise e recolha de informação sobre o sujeito. Estar referenciado ou estar “aprisionado” num quadro de referências são duas formas de ser profissional muito distintas e que podem, facilmente, marcar as possibilidades da intervenção e o quanto esta é valorizada.

Tal como um bom psicólogo não remete a sua compreensão da pessoa, unicamente, aos três estados mentais de Ego, Superego ou Id, tal como um fisioterapeuta competente não reabilita a pessoa tendo como base os três tipos de músculos (liso, estriado cardíaco e estriado esquelético), um psicomotricista não pode limitar a sua prática aos sete factores psicomotores, porque podendo enquadrar a nossa observação, estes factores, tal como quase tudo, em uso excessivo e restrito, limitam a nossa percepção da pessoa e das suas possibilidades – porque, por vezes, o que mais importa é o que não se vê, por estar escondido atrás do que nos salta à vista.

Como nos disse Agostinho Silva, “é preciso estar sempre critico daquilo que se vai admirar” e desmistificar alguns abordagens que “congelam no tempo” as suas visões e posições sobre o que somos.

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

2 comments on “Sete Factores psicomotores: A psicomotricidade (des) mistificada?

  1. Daniel Pereira
    14 de Abril de 2011

    Luís,
    Concordo com a ideia subjacente a este teu texto.

    Mas sabendo nós como funciona esta sociedade, quem é que se afirma sem “boas” referências? Já nem falo da origem conceptual da PM.
    Falo de outras..que andam e falam.
    Nós que saímos da FMH, não tendo as primeiras só lá vamos com as segundas.

  2. lusfernandes
    17 de Abril de 2011

    Não podia estar mais de acordo. As melhores referências são as “andantes e falantes”, mas há sempre qualquer coisa que não pode ser referenciado…que é um processo de construção individual e profissional que não se quer muito aprisionado ou condicionado por quadros teóricos e conceptuais…pode ser uma ínfima parte mas que marca a diferença.

    Obrigado pelo Comentário Daniel!

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This entry was posted on 12 de Abril de 2011 by in Uncategorized.

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