Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Nas auto-estradas…

“Os juízos de valor estão relacionados com o que nos aparece como condições da nossa existência: se as condições mudam, os nossos juízos de valor modificam-se.” F. Nietzsche

Numa viagem que levamos rápido, que preenchemos de informação, de agitação, de estereótipos ou ideias soltas sobre o que nos passa pelos sentidos e se aloja no pensar, tal como a “brisa sonora” de carros que se nos atravessam a velocidades de uma insensatez alucinante, na auto-estrada, na nossa vida que que é muito isso, um conjunto de vias de comunicação a alta velocidade…

Enquanto o leitor percorria as primeiras linhas, nesses 10/15 segundos de leitura, passaram dezenas e dezenas de imagens cerebrais que formaram o pensamento e a consciência do mesmo – foram primeiras linhas (tais como estas, que agora são lidas) carregadas de juízos, ideias inevitáveis de uma mente que, como sabemos, não responde inteiramente à nossa vontade nas associações de imagens que vai fazendo e tornando “reais”, como pop-ups que se instalam, como “visitas a chegar a nossa casa”. São assim as conjecturas que temos do que nos rodeia, são muitas vezes inevitáveis os juízos premeditados e “automáticos” sobre aquela pessoa, as suas posições, o que faz, o que diz…chega a tornar-se mais recorrente/fácil procurar interpretar ou julgar do que simplesmente perceber, ouvir e comunicar com a quem está à nossa frente. Na verdade, penso que o processo de comunicação, atenção e compreensão da realidade (paciente, acto politico, ideologia…) é, claramente, de uma maior exigência do que as percepções individuais que temos de algo com que não nos ligamos, de algo que sem conhecer idealizamos ser de uma ou outra forma.

No âmbito da intervenção terapêutica é imprescindível que o terapeuta perceba onde começa a sua percepção desprendida de informação ou a sua interpretação com base em “pistas de investigação”, partindo do princípio humilde e consciente que o comportamento humano é um dos fenómenos com a maior marca de variabilidade e desconhecimento que existe e que isso acarreta um cuidado redobrado na sua leitura e nas conclusões que são retiradas da mesma. A nossa observação e relação com a pessoa, está sempre limitada aos “mecanismos invisíveis” que são pano de fundo dos comportamentos, as razões, os desejos, motivações as “impulsões” para agir de uma determinada forma – são processos que só ousamos conhecer, quando nos é permitida a entrada neste desconhecido, que só conseguimos “tocar” quando nos atamos e unimos no contacto com a pessoa…não se percebem, não se entendem,  se na velocidade dos sentidos tomarmos por certa a informação que não OUVIMOS, mas que já era nossa.

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

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This entry was posted on 3 de Maio de 2011 by in Uncategorized.

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