Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Na “ambição de impor ao mundo uma nova ordem”!

“Criar (...)E à ambição de impor ao mundo uma nova ordem, ao desejo angustiado de nos furtarmos a um domínio universal, de nos afirmarmos únicos, nós juntamos a pequena ambição de sermos eternos.” V. Ferreira

Criatividade. A palavra dos “novos tempos”, a proclamada solução que parece abafada pela pressão do empreendorismo e da valorização comercial do conceito de criar – hoje a criação é oportunidade de fazer diferente para que a valorização da diferença seja a marca de unicidade que permite a subsistência. O potencial criativo sofre desta pressão e o que é criado e recriado nem sempre se figura a melhor solução.

Lavoisier dizia que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, que a criação é um processo de “rearranjo” original de elementos existentes, um processo de transformação. Apesar da sua área de investigação estar intimamente ligada à química, este francês, com esta afirmação filosófica marcou o seu legado na história do pensar sobre a criatividade e os seus processos. Criar pode, na verdade, ser sinónimo de diversos processos – organizar de modo novo, tornar saliente o que não era, agrupar novos elementos, dar novos sentidos ao existente… uma “constelação” de acções que de comum têm o factor novidade. A novidade ou originalidade é a marca do processo criativo, um aspecto que mais do que pelo criador, que já viu a “obra” na representação mental que criou da mesma, é visto pelo observador como algo que quebra a ordem das coisas usualmente observadas – é a identidade do criador que se vê na obra criada.

A criatividade não é, assim, domínio dos artistas ou dos grandes pensadores, é no seu produto, “área pública” de comunicação entre quem observa e quem, de forma única, comunica com o observado. Neste sentido, encontram-se ligações fortes entre os processos educativos e terapêuticos e este desígnio criativo. Tanto na educação como na terapia o processo individualista de compreensão e “transformação” dos sujeitos, exige que a “particularidade” de cada um dos envolvidos leve a uma forma própria de relação, de contacto, uma “porta aberta” para a criação. O esforço do terapeuta/educador em com os seus recursos, conseguir organizá-los, focar o mais importante, unir o fragmentado e procurar ajudar o “encontro” de novos sentidos no funcionamento da pessoa, é um processo de criação – de um projecto, de um percurso.

O hábito leva-nos a sofrer do mal de pensar que certas capacidades só são de alguns, reservadas por desígnio espiritualizado ou genético a poucos…desresponsabilizamo-nos por incompetência aprendida do melhor que podemos ser e desacreditamos das obras únicas que, no que sabemos fazer, podemos edificar… enfim, ficamos à espera que Deus queira, que os sonhos se sonhem sozinhos, para que a obra nasça. Fernando Pessoa era um génio, mas enganou-nos com esta!

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This entry was posted on 10 de Maio de 2011 by in Uncategorized.

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