Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

O Saco – A história do “easy trigger”

“Postura que deve permitir que o sujeito se sinta suficientemente seguro para baixar as suas defesas e agir sem elas." V. Axline

Agir, agir, agir! Sabe bem esta descarga de movimento, que jorra e nos faz concretos, nos coloca em contacto, nos sente e faz ser sentido, se expressa no que vêem, se vê no que significa – uma acção movimento, um movimento a accionar algo por mostrar ou que não quer ser mostrado – um balão, barulhento se rebentar, silencioso, por vezes, quando carregado e cheio.

Que valor é dado à acção? Que leitura se faz da mesma? Que lugares são abertos para as respostas que carrega? Vejo com alguma regularidade, a importância dada ao movimento nos seus sentidos de performance, eficiência, adequabilidade social, utilidade…”vejo menos o olhar” para a acção no seu sentido comunicativo, expressivo, simbólico… que sentido e significado têm o medo, a alegria, a zanga, a surpresa, a agressividade nos “eu’s” que nos chegam enquanto terapeutas? Que espaços são dados para que o corpo mostre as marcas genuínas (primitivas até…) destas emoções?

Ao tentar dar sentido às manifestações do corpo em acção – especialmente ligadas aos comportamentos agressivos – no contexto de uma intervenção terapêutica, a prática tem sido espelho da importância que tem o contentor emocional que se estabelece na relação e no espaço de intervenção.

Se a expressão agressiva ocorre, existe no corpo agido um potencial de manifestação e transparência inigualavél numa qualquer acção devidamente pensada (camuflada?) por uma atitude de self-defense. O corpo em acção “desenfreada”, em reacção a conflitos exteriores ou interiores, apela à necessidade de uma “segunda pele”, que lhe permite uma envolvência, uma protecção de “saco” – envolve, guarda e segura…não limita, impede ou proíbe. Possibilitar a expressão agressiva não é “deixar acontecer”, porque um saco não deixa as coisas levarem-se, ao invés transporta-as e nunca as deixa cair. Penso que “não deixar cair” a agressividade expressa neste contexto prende-se com a criação de um espaço transaccional de mentalização, o “pensar antes de agir”, o aumento progressivo do tempo entre o “trigger” e a expressão agressiva deste acender – a agressividade é integrada na relação, ora em grupo, ora com o terapeuta, permitindo novos sentidos e significados na mesma. Por ser aceite e contida, a expressão agressiva pode ser reconstruída e transformada, por ser conhecida pode ter significado comunicativo e mostrar como símbolo o que a faz emergir.

Todo o agir é libertador, de certa forma, foi a acção que nos libertou das condições muito primitivas em que fomos filogeneticamente edificados. A todos sabe bem um movimento rápido de paixão, um leve espreguiçar de conforto, a brusquidão do momento ou a delicadeza de um contacto…poderemos nós imaginar o sofrer do corpo marcado por vivências duras de tensão e repressão? Poderiam estes corpos ser diferentes?

É um agir para não ser, num ser que está no agir.

 

 

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

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This entry was posted on 23 de Maio de 2011 by in Uncategorized.

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