Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

All-in!

“A nossa dignidade consiste no pensamento. Procuremos pois pensar bem. Nisto reside o princípio da moral." P. Blaise

Réne Descartes, filósofo francês, é da autoria daquela que é, provavelmente, a frase filosófica mais conhecido no mundo – “Penso, logo existo”. A expressão é exigente e falaciosa. A sua simplicidade não faz perceber as verdadeiras intenções de René, nem a verdade absoluta do que esta junção estratégica de vocábulos encerra. Basta pensar para existir? Quem não pensa não existe? Como se pode não existir não sendo sujeito tangível de existência? O que engloba este conceito de existência? A frase cumpre, pelo menos, o seu objectivo, faz-nos existir, ao pensarmos nela e se a pensamos, então existimos.

Compreender a frase acima, é um processo envolvente de cogitação, de criação de histórias nascidas noutras histórias – hipóteses de compreensão, pontos de partida que dificilmente vêm a sua chegada pois a estrada que nos leva directamente a um fim, é tão sinuosa quanto ávido é o nosso querer de pensar…e o pensar às vezes é isto mesmo, um GPS descontrolado que nos leva sempre a todos os lados antes de chegar onde queremos, temos ou pensamos querer chegar. Nesta “estrada” ramificada de cenários movíveis, pensar é existir, mesmo que pensemos no inexistente, pensar é sinal de vida, de uma vida interior de descoberta e ligação…pensar é “jogar a cara” para dentro, os olhos, ouvidos, boca, nariz, tomar pensamentos os sons, as imagens, os cheiros, os sabores – é juntar tudo e criar…criarmo-nos. Para existir é preciso um espaço, um espaço-tempo para pensar, um espaço-lugar para haver pensamento, um espaço-nosso para ser pensar.

No campo da intervenção terapêutica, poder existir enquanto agente terapeuta também é pensar. Um pensar alicerçado nas histórias criadas sobre a realidade que nos é apresentada – porque cada “cenário” apresenta uma narrativa diferente, peculiaridades únicas e sítios escondidos por descobrir e desvendar. Se a compreensão fica engavetada num ou dois juízos nascidos de informações pouco pensadas e parcamente recolhidas, dá-se o “processo de inexistência” do agente terapêutico enquanto conhecedor e mediador de mudança – pois não é possível intervir adequadamente, sem conhecimento aprofundado do objecto de intervenção. O diagnóstico ajuda, mas não é suficiente, o conhecer a patologia idem, porque as pessoas são mais do que uma chapa identificadora, muito mais que um conjunto de sintomas a que foi dado um nome.

Portanto pensemos! Nas coisas mais descabidas, nas hipóteses mais remotas, coloquemos tudo em cima da nossa mesa craniana, façamos valer a existência que nos aconteceu…porque ao pensar, não só existo, ganho a certeza do existimos, vendo na cabeça o que não é só meu, nos pedaços de mundo que vou captando.

 

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

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This entry was posted on 31 de Maio de 2011 by in Uncategorized.

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